Telefonema de algibeira

04/13/14

Às vezes recebo tele­fo­ne­mas de algi­beira.
Quem me liga não é a pes­soa pro­pri­a­mente dita, mas sim a sua indu­men­tá­ria.
Por exem­plo, no outro dia o meu tele­fone tocou. Era uma cha­mada de Maria.
Do outro lado, uma caco­fo­nia de sons, em sur­dina. Ruí­dos aba­fa­dos.
“Estou, Maria?”. Nenhuma res­posta, ape­nas uma série de ruí­dos ininteligíveis.

Após aquilo que pare­ceu uma eter­ni­dade mas que na rea­li­dade foram 23 segun­dos eis que, final­mente, surge uma voz com um tim­bre muito pecu­liar:
“Alô Ger­vá­sio, daqui fala o bolso da Maria. Fui eu que lhe liguei. Como está?“
Não estava à espera daquela intro­du­ção. Bal­bu­ciei qual­quer coisa. Era uma situ­a­ção iné­dita para mim. Tenho alguns abat-jours de quem sou con­fi­dente, mas con­fesso que nunca tinha inte­ra­gido com bol­sos, nem tão pouco sabia que fala­vam, daí a minha com­pre­en­sí­vel estranheza.

 
Após essa hesi­ta­ção ini­cial, o bolso que­brou o gelo com uma ane­dota, bas­tante engra­çada por sinal. Era a típica piada que prin­ci­pia com 3 indi­ví­duos de dife­ren­tes naci­o­na­li­da­des que entram num bar. Alu­dia depois ao facto de a vida ser triste e des­pro­vida de sen­tido e que as todas as nos­sas acções no fundo são incon­se­quen­tes, inú­teis e ridí­cu­las. Algo do género. Con­tado pelo bolso tem mais graça. Gos­tei do facto de ser um denim com sen­tido de humor.

A par­tir daí, a con­versa come­çou a fluir. Estabeleceu-se ali uma inte­rac­ção inte­res­sante entre nós. Quem diria que uma por­ção inte­rior de tecido pode­ria ter tan­tos e tão vas­tos conhe­ci­men­tos his­tó­ri­cos acerca da bata­lha de Water­loo. E rela­tos tão curi­o­sos sobre a vida de Maria. 

Real­mente é ver­dade que aquilo dizem. Aquilo que uma pes­soa veste pode dizer muito sobre ela.
Agora reco­nheço isso.

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Coisas que acontecem com alguma regularidade

08/09/12

Meus ami­gos, o motivo pelo qual vos con­vo­quei é bas­tante sério.”

Ole­gá­rio man­ti­nha uma pos­tura grave. Nin­guém ousava duvi­dar das suas pala­vras. O assunto devia mesmo ser sério, a jul­gar pelo cui­dado que Ole­gá­rio man­ti­nha com a sua apa­rên­cia, uma carac­te­rís­tica nele invul­gar. Por exem­plo, não tinha as cal­ças des­caí­das e por con­sequên­cia as cue­cas à mos­tra, como habi­tu­al­mente. Além disso, naquele dia não ia dar nenhum jogo de fute­bol na tele­vi­são e não havia cer­veja no fri­go­rí­fico. Por­que razão teria Ole­gá­rio con­vo­cado todos os seus ami­gos para vir a sua casa naquela noite?

Ole­gá­rio, apro­vei­tando a deixa do nar­ra­dor, não per­deu tempo: “Meus ami­gos, vou então satis­fa­zer a vossa curi­o­si­dade. É o seguinte: o mundo vai aca­bar den­tro de 45 minutos.”

Ime­di­a­ta­mente se gerou uma enorma como­ção. Todos os pre­sen­tes entra­ram em deses­pero. O mundo ia aca­bar e todos sabiam muito bem o que isso significava.

Ai meu deus, lembrei-me agora que saí de casa e esqueci-me de des­li­gar o fogão!” Excla­mou Simone. “Vai ser bonita a conta da elec­tri­ci­dade no final do mês, vai!”

Toda a gente come­çou num coro de gri­tos e pranto.

Meus ami­gos, não vos inqui­e­teis” Ole­gá­rio sabia bem como sere­nar os âni­mos. “O mundo vai ter­mi­nar, o que quer dizer que com isso todos os vos­sos sonhos, tudo aquilo que vocês sem­pre qui­se­ram fazer de forma a dar sig­ni­fi­cado à vossa paté­tica exis­tên­cia, nada disso importa mais. Em breve já não terão de se pre­o­cu­par com isso.

Peço des­culpa”, Pro­tes­tou Arlindo, “mas agora já só fal­tam 42 minu­tos, entre­tanto já decor­re­ram 3. O mundo vai aca­bar, tudo bem, mas isso não é des­culpa para come­çar com impre­ci­sões. Daqui a pouco isto tudo é uma ban­da­lheira e come­ça­mos a ter sexo uns com os outros”

Não era mal pen­sado, não senhor.” Inter­veio Adal­berto. “Parece-me um exce­lente pre­texto para se con­se­guir levar alguém para a cama. Real­mente é pena o mundo não vol­tar a aca­bar mais vezes.”

Ole­gá­rio insurgiu-se: “Vamos ten­tar man­ter a seri­e­dade, que já estou a ver isto a des­cam­bar. Temos outros assun­tos a falar pri­meiro. Depois de dis­cu­ti­dos, aí sim pode­mos enrolar-nos uns com os outros e ter­mi­nar os der­ra­dei­ros ins­tan­tes da nossa exis­tên­cia com um lindo orgasmo colec­tivo. Simone, designo-te a secre­tá­ria desta reu­nião. Ficas res­pon­sá­vel por escre­ver a acta.

Sou sem­pre eu a escre­ver a acta”, pro­tes­tou Simone. “Não é justo”

De todos nós, és tu que tens a cali­gra­fia mais bonita”, jus­ti­fi­cou Adalberto.

Todos con­cor­da­ram com aquela deci­são. Simone ainda pro­tes­tou, dizendo algo do género “isso não faz sen­tido, a acta é sem­pre escrita no com­pu­ta­dor”, mas a sua voz foi aba­fada pelo entu­si­asmo de todos os pre­sen­tes. O estado geral era de euforia.

De repente, entra em casa a mãe de Ole­gá­rio, uma senhora nos seus 90 anos. A sua che­gada não estava pre­vista. Ime­di­a­ta­mente ces­sou todo aquele sururu e se fez um silên­cio sepul­cral. A mãe de Ole­gá­rio olhou para todos os pre­sen­tes, estu­pe­facta. Sus­pi­rou e disse por fim:

Não me digam que estão outra vez a brin­car ao fim do mundo. Sin­ce­ra­mente, estou muito desi­lu­dida convosco!”

Todos des­vi­a­vam o olhar, cabis­bai­xos, sem sabe­rem o que responder.

A anciã con­ti­nuou: “Já era altura de para­rem com esta fan­to­chada e cres­ce­rem um pouco. Onde é que já se viu, adul­tos com famí­lia e res­pon­sa­bi­li­da­des a per­de­rem tempo com estas coi­sas, estas brin­ca­dei­ras. Tenham ver­go­nha na cara!”

Durante aquilo que pare­ce­ram qua­tro minu­tos mas que na rea­li­dade foram três nin­guém disse pala­vra. Ole­gá­rio ainda ten­tou dizer alguma coisa mas ficou sem jeito. Perante aque­las pala­vras, que pode­riam eles dizer?

Final­mente, a mãe de Ole­gá­rio deci­diu por termo àquele penoso silêncio:

Bem, vejo que estão todos ves­ti­dos. Isso quer dizer que ainda che­guei a tempo. Vamos então tirar a roupa?”

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O futuro vem aí, disse-me um senhor no café

07/22/12

Eu con­sigo pre­ver o futuro.” disse Simone a Aquilino.

A sério?” Aqui­lino estava visi­vel­mente sur­pre­en­dido com esta afirmação.

Sim. Tenho pode­res a nível da pre­mo­ni­ção de acon­te­ci­men­tos vindouros”

Isso é bas­tante  inte­res­sante. Mais inte­res­sante até do que o facto de teres pé de atleta, facto que des­co­bri na semana pas­sada da pior forma enquanto con­cre­ti­zava aquele meu feti­che. No entanto estou bas­tante cép­tico em rela­ção a isso e apro­veito para cru­zar tanto os bra­ços como as per­nas, sina­li­zando tam­bém o meu cep­ti­cismo atra­vés da minha lin­gua­gem corporal.

Não acre­di­tas em mim? Estás-me a cha­mar men­ti­rosa?” Simone estava irritada.

Ai, estou feito. Já várias mulhe­res me con­fron­ta­ram com esta ques­tão e nunca ter­mi­nou bem. Pela minha expe­ri­ên­cia o melhor a fazer é atirar-me ao chão, colocar-me em posi­ção fetal e só vol­tar a falar na pre­sença do meu advogado.”

Simone deteve-o. “Não faças isso, não é neces­sá­rio che­gar a tanto. Vou-te pro­var que estou a dizer a ver­dade. Pergunta-me qual­quer coisa sobre o futuro.”

Está bem. Ora deixa cá ver. Ah, já sei! Diz-me, quem vai ser o ven­ce­dor do cam­pe­o­nato mun­dial femi­nino de cur­ling do pró­ximo ano? ”

Cur­ling? Não sei o que isso é.”

Devo-te dizer que estás a pas­sar ao lado de um des­porto tem muito de bonito, emo­ci­o­nante e até de higié­nico. Junta-se o útil ao agra­dá­vel. A pista fica bem relu­zente dado o vigor com que os par­ti­ci­pan­tes esfre­gam o gelo, é tudo gente muito asse­ada. Seria giro trans­po­rem a mesma lógica para o fute­bol e pas­sa­rem a jogar com máqui­nas de cor­tar relva. Poupava-se muito em manu­ten­ção do ter­reno de jogo”.

É capaz, mas assim sendo não posso fazer essa pre­vi­são. Os meus pode­res não se apli­cam a coi­sas cuja defi­ni­ção eu desconheço.”

Mmm, está bem.” Aqui­lino afa­gou a barba “Então cá vai outra: alguma vez será des­co­berta a cura para a calvície?”

Sim sim, muito em breve.”

Muito em breve? Mas quando, ama­nhã, de hoje e 8, daqui a 5 anos?”

Sim, pode ser!”

Isso é uma res­posta muito vaga. Eu diria que isso é uma estu­pi­dez, mas como ainda faço ten­ções de dor­mir con­tigo nova­mente opto antes por afir­mar que isso me soa a charlatanice.”

Nada disso! Por exem­plo, posso usar os meus pode­res para te dizer que irás rece­ber uma esta­lada muito em breve.”

“Uma esta­lada? Mas de quem?” Mal estava Aqui­lino a ter­mi­nar estas pala­vras, Simone desfere-lhe uma esta­lada com tanta força que pro­va­vel­mente lhe des­lo­cou tanto o maxi­lar como a sua masculinidade.

Vês, eu não te dizia? É bem feito. É para apren­de­res a não duvi­dar de mim!”

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A melhor das intenções

07/20/12

Amá­lia era uma pes­soa que tudo fazia por mal. Tinha sem­pre a pior das inten­ções. Havia quem não acei­tasse essa sua con­duta. “Amá­lia”, diziam-lhe os seus cole­gas de tra­ba­lho, “podes per­fei­ta­mente infernizar-nos a vida e colocar-nos em situ­a­ções peri­go­sas que even­tu­al­mente colo­cam em perigo as nos­sas vidas e pro­vo­cam até o cha­mado fale­ci­mento das nos­sas pes­soas, mas não podes fazê-lo por mal.”

No entanto, era por per­fí­dia pura com algum tédio à mis­tura que Amá­lia come­tia acções dia­bó­li­cas con­tra os seus pares. A empresa defen­dia uma polí­tica de redu­ção de cus­tos com o pes­soal pelo que o facto de Amá­lia andar entre­tida a matar pelo menos um fun­ci­o­ná­rio todas as sema­nas não lhe dava direito a rece­ber sequer uma admo­es­ta­ção por parte da direc­ção. O máximo que rece­beu foi um olhar de repro­va­ção do chefe por ter dani­fi­cado um agra­fa­dor da empresa que uti­li­zou num dos seus homi­cí­dios, revelando-se desta feita bas­tante negli­gente no manu­se­a­mento do equi­pa­mento de escritório.

Até que um dia tudo iria mudar. Um colega de tra­ba­lho de Amá­lia, fale­ceu, viti­mado por um enge­nho explo­sivo por ela colo­cado não sem alguma malí­cia. Até aqui tudo bem. Mas sucede que Amá­lia supri­miu esse seu colega por engano. Não era esse que ela que­ria matar, eram outros oito, mas esse não. O engano provocou-lhe uma angús­tia tal que Amá­lia mudou com­ple­men­ta­mente a sua forma de ser. Con­ti­nuou a matar gente com far­tura, a torto e à direito, como até então, mas pas­sou a fazê-lo com a melhor das inten­ções, como se pede a uma rapa­riga da sua condição.

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O rapto de Olegário

07/09/12

Aqui­lino gos­tava da pala­vra cor­rup­ção. E da pala­vra ban­di­tismo. E tam­bém de estu­pe­fa­ci­en­tes. Mas só das pala­vras, não das acções as per­meiam e que a elas estão ine­vi­ta­vel­mente asso­ci­a­das. Aqui­lino era um fora-da-lei estri­ta­mente a nível lite­rá­rio. A polí­cia lexi­cal há muito que andava no seu encalço. Os 245 cri­mes pelos quais estava indi­ci­ado tornavam-no sem dúvida no homem mais pro­cu­rado da região de Melgaço.

Zis­lav­to­vic Costa, um céle­bre autor de roman­ces de cor­del luso-esloveno, rece­beu um dia uma enco­menda na sua caixa de cor­reio. Tratava-se de uma épica obra da auto­ria de Aqui­lino em que este engen­drava uma ela­bo­rada nar­ra­tiva sobre o rapto de Ole­gá­rio, o per­so­na­gem fic­tí­cio habi­tual pro­ta­go­nista dos livros de Zis­lav­to­vic. Na obra Ole­gá­rio desa­pa­re­cia sem dei­xar rasto, levado por um con­junto de homens enca­pu­ça­dos. Perante o desa­pa­re­ci­mento do seu per­so­na­gem pre­di­lecto, Zis­lav­to­vic ficou desam­pa­rado. Sem ele, não podia con­ti­nuar a escre­ver. Ime­di­a­ta­mente deu conta do rapto às auto­ri­da­des com­pe­ten­tes, que não tar­da­ram em lan­çar um man­dato inter­na­ci­o­nal de busca por Aqui­lino na sec­ção “poli­ciá­rio” do jor­nal “clube de detectives”.

As auto­ri­da­des ini­ci­a­ram ime­di­a­ta­mente as dili­gên­cias neces­sá­rias para apa­nhar Aqui­lino. O seu melhor inves­ti­ga­dor, Otelo, come­çou ime­di­a­ta­mente a dac­ti­lo­gra­far uma nar­ra­tiva em que se des­cre­via a inves­ti­ga­ção, passo-por-passo. Por causa de uma artrite, os dedos de Aqui­lino ten­diam a emper­rar. A sua velo­ci­dade de digi­ta­ção andava nas 100 pala­vras por minuto, bem abaixo das 160 con­se­gui­das por Otelo, que não tar­dou em apa­nhar Aqui­lino no capí­tulo 8, cuja acção se situ­ava na Festa das Cru­zes, em Bar­ce­los, um cená­rio pleno em far­tu­ras e car­ros­séis. Tudo cul­mi­nou com uma desen­fre­ada per­se­gui­ção nos car­ri­nhos de cho­que, em que Aqui­lino soço­brou em vir­tude de ter ficado sem fichas e o seu car­ri­nho se ter imo­bi­li­zado. Otelo alge­mou Aqui­lino e mandou-o para a choldra.

Quanto à per­so­na­gem desa­pa­re­cida de Zis­lav­to­vic, Ole­gá­rio, foi encon­trada. Esteve aquele tempo todo escon­dido numa obra de Antó­nio Lobo Antu­nes. Conhe­ceu lá uma moça e vol­tou ena­mo­rado. Uma mara­vi­lha. Quanto a Aqui­lino, aca­ba­ria por levar a melhor. Zis­lav­to­vic não repa­rou que, Aqui­lino, na obra que lhe tinha envi­ado, rela­tou no pos­fá­cio a forma como iria fugir da pri­são. Evadiu-se facil­mente, esca­pando mais uma vez das malhas da jus­tiça. Ainda hoje anda a monte, ilu­dindo polí­cia, crí­ti­cos lite­rá­rios e acu­mu­lando um sem fim de devo­lu­ções em atraso em várias bibli­o­te­cas por aí.

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O amor aquece os pés

07/08/12

Vivi com Semyo­novna uma linda his­tó­ria de amor. Nunca mais me esqueço das pala­vras por ela pro­fe­ri­das naquele dia 23 de Outu­bro em São Peters­burgo. Está­va­mos ambos rega­la­dos a olhar para o rio Neva quando ela se vira para mim e diz, sem pes­ta­ne­jar: “És um idi­ota”. Foi naquela altura em que pen­sei: afi­nal tenho uma hipó­tese com ela!

Nor­mal­mente, Semyo­novna igno­rava a minha pre­sença por com­pleto. Numa oca­sião calhou ela de vir de coche na minha direc­ção, tendo eu de me lan­çar para a valeta de forma a não ser espe­zi­nhado pelos cava­los. Isto ilus­tra que ela não me via, de todo. Mas naquele dia 12 de Janeiro (lembro-me per­fei­ta­mente daquele dia), em São Peters­burgo, vi em Semyo­novna o pri­meiro sinal de que aquela sua maleita a nível ocu­lar se come­çava a dis­si­par. “És um idi­ota”, disse ela. E tinha toda a razão. Semyo­novna, além de não ser feia de todo, revelava-se bas­tante pers­pi­caz na altura de topar idi­o­tas.  “Nunca te per­do­a­rei por teres matado a velha, Raskolnikov”.

O epi­só­dio a que ela se refe­ria foi a um pequeno homi­cí­dio, coisa pouca, por mim come­tido na semana pas­sada. Matei uma velhota indi­gente sem dó nem pie­dade. Semyo­novna ficou revol­tada, como seria de espe­rar, pois estava à espera que eu tivesse assas­si­nado bru­tal­mente dois indi­ví­duos a quem ela devia imenso dinheiro. Mas não. Fui assas­si­nar uma velha que não lhe tinha come­tido nenhum acto par­ti­cu­lar­mente desa­gra­dá­vel. Tinha sido um homi­cí­dio mal-direccionado e que não pro­vava o lindo e belo amor que eu dizia nutrir por ela, no enten­der de Semyonovna.

Mas as coi­sas mudam. Naquela noite, sucum­bindo ao meu charme e a 10 shots de absinto com uma pitada de rohyp­nol, Semyo­novna aca­ba­ria por par­ti­lhar o leito comigo. Naquela noite ador­me­ce­mos abra­ça­dos um ao outro. O amor é isto. O amor aquece os pés.

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Amor sem fim e sem chulé

06/11/12

Aqui­lino não gos­tava de ofen­der as pes­soas pela inter­net. Atra­vés do com­pu­ta­dor, não con­se­guia rece­ber valen­tes pares de esta­los na cara. Os esta­los por ele recep­ci­o­na­dos e a vee­mên­cia com que eram des­fe­ri­dos permitiam-lhe ava­liar o impacto das suas pro­vo­ca­ções. Impos­si­bi­li­tado de escu­tar a frequên­cia da rever­be­ra­ção das suas boche­chas, sem con­se­guir ver o ódio fla­me­jante no olhar do seu inter­lo­cu­tor, Aqui­lino sentia-se per­dido. Atra­vés do chat, os smi­leys que rece­bia sina­li­zando desa­grado eram todos iguais. Uma massa indis­tina de cír­cu­los ama­re­los com tos­cos tra­ços que não con­se­guiam cap­tar todas as nuan­ces da paleta de expres­sões do rosto humano. Aqui­lino ansi­ava por uma liga­ção emo­ci­o­nal real. Que­ria ser ele o objecto de ódio e de des­prezo e não a sua alcu­nha no IRC, joel_lisboa_19, o ponto onde todo o aze­dume con­fluísse. De repente apaixonou-se e pas­sou a ser um homem bom. Aquela máquina de cor­tar relva por quem Aqui­lino se ena­mo­rou ensinou-o a amar. Pas­sa­dos uns tem­pos, Aqui­lino ganhou tino e trocou-a por uma volup­tu­osa mulher russa cha­mada Ieg­ve­nia. A sua rela­ção de Ieg­ve­nia era muito mais car­nal. Aqui­lino vivia num apar­ta­mento, sem quin­tal ou qual­quer outro tipo de espaço verde, pelo que aquele envol­vi­mento com a máquina de cor­tar relva estava des­ti­nado ao fra­casso desde o iní­cio. Além disso, a máquina era muito ima­tura emo­ci­o­nal­mente. Ieg­ve­nia ria-se das pia­das de Aqui­lino. Pela pri­meira vez na vida, este sentia-se feliz.

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