A idade dos porquês

“Pai, de onde vêm os bebés?”

Mal ouviu esta questão, Belmiro, o patriarca, ficou em pânico. Lançou-se na direcção da janela, estilhaçando-a, e caiu desamparado do sexto andar, aterrando em cima de alguns arbustos e papéis de um jornal bimestral que ampararam a sua queda.

Ainda algo combalido, chamou ordeiramente por um táxi e pediu-lhe que o levasse até ao aeroporto. Nunca mais ninguém da sua família lhe voltaria a pôr a vista em cima.

Ambrósio, o seu filho, estava visivelmente consternado com toda esta situação.

Ivone, a mãe, apareceu de rompante na sala. “Que aconteceu aqui?”

Os estilhaços de vidro, cadeiras derrubadas e papel de parede a destoar com o resto da decoração deixavam a entender que algo de peculiar tinha ali sucedido.

“Eu apenas perguntei ao papá de onde vem os bebés, e ele fugiu pela janela!”

Ivone ficou horrorizada. Sem dizer palavra, saiu do apartamento a correr, galgou as escadas do prédio e dirigiu-se ao terraço. Era lá que conservava um canhão, relíquia dos seus tempos de artista circense, em que protagonizou um número denominado “As parábolas da mulher-bala”.

Introduziu-se no interior do canhão e acendeu o rastilho. O canhão produziu uma glorioso explosão, tendo Ivone sido projectada para outro continente.

Poucos minutos depois, é a vez da avó aparecer na sala. Encontrou Ambrósio a lacrimejar de forma bem maricas, pois vertia unicamente uma lágrima, ao invés de lacrimejar torrencialmente, como um homem a sério.

“Meu querido neto, que sucedeu?”

“Não sei, avô. Perguntei ao papá de onde vêm os bebés. E ele fugiu! Depois perguntei o mesmo à mamã, e ela também! Abandonaram-me!”

A avó reagiu com serenidade: “Meu caro neto, sabes bem como é, não é um tema fácil para os teus pais. Da última vez que lhes colocaste essa questão, se bem que te recordas, eles desapareceram sem deixar rasto. Foram viver como eremitas, em lugares recônditos na Amazónia, e só regressarem a casa passados 5 anos. Eles gostavam de conseguir falar contigo sobre isso, sempre lhes foi difícil, mas na tua idade é ainda um tema delicado, não te esqueças que tens 55 anos”.

– “55 anos?” A realidade da abstracção que é o sistema de numeração abateu-se sobre Ambrósio. “Basta! Adeus mundo cruel!” Ambrósio foi buscar o projecto de Ciências que elaborou no quinto ano de escola. Tratava-se de uma geringonça. Pressionou alguns pistões e rodou uma alavanca, o que despoletou a abertura de um buraco de verme, uma fenda no contínuo espaço-temporal em plena sala-de-estar, imagine-se só. Este túnel permitiu a Ambrósio viajar para uma outra galáxia. O buraco cerrou-se atrás de si, para não criar corrente de ar e causar resfriados, e também impedir que alguém o seguisse.

Em casa restava a avó, ainda atarantada com aquela sucessão de acontecimentos. Os restantes elementos do agregado familiar tinham acabado de fugir, conforme relatámos, e a casa parecia-lhe mais lúgubre do que nunca, a vida desprovida de sentido.

O mais triste, para a avó, é que se tinha deixado antecipar pelas restantes personagens e perdido a possibilidade de conseguir a sua saída dramática da história.

1 de Abril de 2017  Publicar um comentário

Telefonema de algibeira

Às vezes recebo telefonemas de algibeira.
Quem me liga não é a pessoa propriamente dita, mas sim a sua indumentária.
Por exemplo, no outro dia o meu telefone tocou. Era uma chamada de Maria.
Do outro lado, uma cacofonia de sons, em surdina. Ruídos abafados.
“Estou, Maria?”. Nenhuma resposta, apenas uma série de ruídos ininteligíveis.

Após aquilo que pareceu uma eternidade mas que na realidade foram 23 segundos eis que, finalmente, surge uma voz com um timbre muito peculiar:
“Alô Gervásio, daqui fala o bolso da Maria. Fui eu que lhe liguei. Como está?”
Não estava à espera daquela introdução. Balbuciei qualquer coisa. Era uma situação inédita para mim. Tenho alguns abat-jours de quem sou confidente, mas confesso que nunca tinha interagido com bolsos, nem tão pouco sabia que falavam, daí a minha compreensível estranheza.

 
Após essa hesitação inicial, o bolso quebrou o gelo com uma anedota, bastante engraçada por sinal. Era a típica piada que principia com 3 indivíduos de diferentes nacionalidades que entram num bar. Aludia depois ao facto de a vida ser triste e desprovida de sentido e que as todas as nossas acções no fundo são inconsequentes, inúteis e ridículas. Algo do género. Contado pelo bolso tem mais graça. Gostei do facto de ser um denim com sentido de humor.

A partir daí, a conversa começou a fluir. Estabeleceu-se ali uma interacção interessante entre nós. Quem diria que uma porção interior de tecido poderia ter tantos e tão vastos conhecimentos históricos acerca da batalha de Waterloo. E relatos tão curiosos sobre a vida de Maria. 

Realmente é verdade que aquilo dizem. Aquilo que uma pessoa veste pode dizer muito sobre ela.
Agora reconheço isso.

13 de Abril de 2014  Publicar um comentário

Coisas que acontecem com alguma regularidade

“Meus amigos, o motivo pelo qual vos convoquei é bastante sério.”

Olegário mantinha uma postura grave. Ninguém ousava duvidar das suas palavras. O assunto devia mesmo ser sério, a julgar pelo cuidado que Olegário mantinha com a sua aparência, uma característica nele invulgar. Por exemplo, não tinha as calças descaídas e por consequência as cuecas à mostra, como habitualmente. Além disso, naquele dia não ia dar nenhum jogo de futebol na televisão e não havia cerveja no frigorífico. Porque razão teria Olegário convocado todos os seus amigos para vir a sua casa naquela noite?

Olegário, aproveitando a deixa do narrador, não perdeu tempo: “Meus amigos, vou então satisfazer a vossa curiosidade. É o seguinte: o mundo vai acabar dentro de 45 minutos.”

Imediatamente se gerou uma enorma comoção. Todos os presentes entraram em desespero. O mundo ia acabar e todos sabiam muito bem o que isso significava.

“Ai meu deus, lembrei-me agora que saí de casa e esqueci-me de desligar o fogão!” Exclamou Simone. “Vai ser bonita a conta da electricidade no final do mês, vai!”

Toda a gente começou num coro de gritos e pranto.

“Meus amigos, não vos inquieteis” Olegário sabia bem como serenar os ânimos. “O mundo vai terminar, o que quer dizer que com isso todos os vossos sonhos, tudo aquilo que vocês sempre quiseram fazer de forma a dar significado à vossa patética existência, nada disso importa mais. Em breve já não terão de se preocupar com isso.

“Peço desculpa”, Protestou Arlindo, “mas agora já só faltam 42 minutos, entretanto já decorreram 3. O mundo vai acabar, tudo bem, mas isso não é desculpa para começar com imprecisões. Daqui a pouco isto tudo é uma bandalheira e começamos a ter sexo uns com os outros”

“Não era mal pensado, não senhor.” Interveio Adalberto. “Parece-me um excelente pretexto para se conseguir levar alguém para a cama. Realmente é pena o mundo não voltar a acabar mais vezes.”

Olegário insurgiu-se: “Vamos tentar manter a seriedade, que já estou a ver isto a descambar. Temos outros assuntos a falar primeiro. Depois de discutidos, aí sim podemos enrolar-nos uns com os outros e terminar os derradeiros instantes da nossa existência com um lindo orgasmo colectivo. Simone, designo-te a secretária desta reunião. Ficas responsável por escrever a acta.

“Sou sempre eu a escrever a acta”, protestou Simone. “Não é justo”

“De todos nós, és tu que tens a caligrafia mais bonita”, justificou Adalberto.

Todos concordaram com aquela decisão. Simone ainda protestou, dizendo algo do género “isso não faz sentido, a acta é sempre escrita no computador”, mas a sua voz foi abafada pelo entusiasmo de todos os presentes. O estado geral era de euforia.

De repente, entra em casa a mãe de Olegário, uma senhora nos seus 90 anos. A sua chegada não estava prevista. Imediatamente cessou todo aquele sururu e se fez um silêncio sepulcral. A mãe de Olegário olhou para todos os presentes, estupefacta. Suspirou e disse por fim:

“Não me digam que estão outra vez a brincar ao fim do mundo. Sinceramente, estou muito desiludida convosco!”

Todos desviavam o olhar, cabisbaixos, sem saberem o que responder.

A anciã continuou: “Já era altura de pararem com esta fantochada e crescerem um pouco. Onde é que já se viu, adultos com família e responsabilidades a perderem tempo com estas coisas, estas brincadeiras. Tenham vergonha na cara!”

Durante aquilo que pareceram quatro minutos mas que na realidade foram três ninguém disse palavra. Olegário ainda tentou dizer alguma coisa mas ficou sem jeito. Perante aquelas palavras, que poderiam eles dizer?

Finalmente, a mãe de Olegário decidiu por termo àquele penoso silêncio:

“Bem, vejo que estão todos vestidos. Isso quer dizer que ainda cheguei a tempo. Vamos então tirar a roupa?”

9 de Agosto de 2012  2 Comentários

O futuro vem aí, disse-me um senhor no café

“Eu consigo prever o futuro.” disse Simone a Aquilino.

“A sério?” Aquilino estava visivelmente surpreendido com esta afirmação.

“Sim. Tenho poderes a nível da premonição de acontecimentos vindouros”

“Isso é bastante  interessante. Mais interessante até do que o facto de teres pé de atleta, facto que descobri na semana passada da pior forma enquanto concretizava aquele meu fetiche. No entanto estou bastante céptico em relação a isso e aproveito para cruzar tanto os braços como as pernas, sinalizando também o meu cepticismo através da minha linguagem corporal.

“Não acreditas em mim? Estás-me a chamar mentirosa?” Simone estava irritada.

“Ai, estou feito. Já várias mulheres me confrontaram com esta questão e nunca terminou bem. Pela minha experiência o melhor a fazer é atirar-me ao chão, colocar-me em posição fetal e só voltar a falar na presença do meu advogado.”

Simone deteve-o. “Não faças isso, não é necessário chegar a tanto. Vou-te provar que estou a dizer a verdade. Pergunta-me qualquer coisa sobre o futuro.”

“Está bem. Ora deixa cá ver. Ah, já sei! Diz-me, quem vai ser o vencedor do campeonato mundial feminino de curling do próximo ano? ”

“Curling? Não sei o que isso é.”

“Devo-te dizer que estás a passar ao lado de um desporto tem muito de bonito, emocionante e até de higiénico. Junta-se o útil ao agradável. A pista fica bem reluzente dado o vigor com que os participantes esfregam o gelo, é tudo gente muito asseada. Seria giro transporem a mesma lógica para o futebol e passarem a jogar com máquinas de cortar relva. Poupava-se muito em manutenção do terreno de jogo”.

“É capaz, mas assim sendo não posso fazer essa previsão. Os meus poderes não se aplicam a coisas cuja definição eu desconheço.”

“Mmm, está bem.” Aquilino afagou a barba “Então cá vai outra: alguma vez será descoberta a cura para a calvície?”

“Sim sim, muito em breve.”

“Muito em breve? Mas quando, amanhã, de hoje e 8, daqui a 5 anos?”

“Sim, pode ser!”

“Isso é uma resposta muito vaga. Eu diria que isso é uma estupidez, mas como ainda faço tenções de dormir contigo novamente opto antes por afirmar que isso me soa a charlatanice.”

“Nada disso! Por exemplo, posso usar os meus poderes para te dizer que irás receber uma estalada muito em breve.”

“”Uma estalada? Mas de quem?” Mal estava Aquilino a terminar estas palavras, Simone desfere-lhe uma estalada com tanta força que provavelmente lhe deslocou tanto o maxilar como a sua masculinidade.

“Vês, eu não te dizia? É bem feito. É para aprenderes a não duvidar de mim!”

22 de Julho de 2012  Publicar um comentário

A melhor das intenções

Amália era uma pessoa que tudo fazia por mal. Tinha sempre a pior das intenções. Havia quem não aceitasse essa sua conduta. “Amália”, diziam-lhe os seus colegas de trabalho, “podes perfeitamente infernizar-nos a vida e colocar-nos em situações perigosas que eventualmente colocam em perigo as nossas vidas e provocam até o chamado falecimento das nossas pessoas, mas não podes fazê-lo por mal.”

No entanto, era por perfídia pura com algum tédio à mistura que Amália cometia acções diabólicas contra os seus pares. A empresa defendia uma política de redução de custos com o pessoal pelo que o facto de Amália andar entretida a matar pelo menos um funcionário todas as semanas não lhe dava direito a receber sequer uma admoestação por parte da direcção. O máximo que recebeu foi um olhar de reprovação do chefe por ter danificado um agrafador da empresa que utilizou num dos seus homicídios, revelando-se desta feita bastante negligente no manuseamento do equipamento de escritório.

Até que um dia tudo iria mudar. Um colega de trabalho de Amália, faleceu, vitimado por um engenho explosivo por ela colocado não sem alguma malícia. Até aqui tudo bem. Mas sucede que Amália suprimiu esse seu colega por engano. Não era esse que ela queria matar, eram outros oito, mas esse não. O engano provocou-lhe uma angústia tal que Amália mudou complementamente a sua forma de ser. Continuou a matar gente com fartura, a torto e à direito, como até então, mas passou a fazê-lo com a melhor das intenções, como se pede a uma rapariga da sua condição.

20 de Julho de 2012  2 Comentários

O rapto de Olegário

Aquilino gostava da palavra corrupção. E da palavra banditismo. E também de estupefacientes. Mas só das palavras, não das acções as permeiam e que a elas estão inevitavelmente associadas. Aquilino era um fora-da-lei estritamente a nível literário. A polícia lexical há muito que andava no seu encalço. Os 245 crimes pelos quais estava indiciado tornavam-no sem dúvida no homem mais procurado da região de Melgaço.

Zislavtovic Costa, um célebre autor de romances de cordel luso-esloveno, recebeu um dia uma encomenda na sua caixa de correio. Tratava-se de uma épica obra da autoria de Aquilino em que este engendrava uma elaborada narrativa sobre o rapto de Olegário, o personagem fictício habitual protagonista dos livros de Zislavtovic. Na obra Olegário desaparecia sem deixar rasto, levado por um conjunto de homens encapuçados. Perante o desaparecimento do seu personagem predilecto, Zislavtovic ficou desamparado. Sem ele, não podia continuar a escrever. Imediatamente deu conta do rapto às autoridades competentes, que não tardaram em lançar um mandato internacional de busca por Aquilino na secção “policiário” do jornal “clube de detectives”.

As autoridades iniciaram imediatamente as diligências necessárias para apanhar Aquilino. O seu melhor investigador, Otelo, começou imediatamente a dactilografar uma narrativa em que se descrevia a investigação, passo-por-passo. Por causa de uma artrite, os dedos de Aquilino tendiam a emperrar. A sua velocidade de digitação andava nas 100 palavras por minuto, bem abaixo das 160 conseguidas por Otelo, que não tardou em apanhar Aquilino no capítulo 8, cuja acção se situava na Festa das Cruzes, em Barcelos, um cenário pleno em farturas e carrosséis. Tudo culminou com uma desenfreada perseguição nos carrinhos de choque, em que Aquilino soçobrou em virtude de ter ficado sem fichas e o seu carrinho se ter imobilizado. Otelo algemou Aquilino e mandou-o para a choldra.

Quanto à personagem desaparecida de Zislavtovic, Olegário, foi encontrada. Esteve aquele tempo todo escondido numa obra de António Lobo Antunes. Conheceu lá uma moça e voltou enamorado. Uma maravilha. Quanto a Aquilino, acabaria por levar a melhor. Zislavtovic não reparou que, Aquilino, na obra que lhe tinha enviado, relatou no posfácio a forma como iria fugir da prisão. Evadiu-se facilmente, escapando mais uma vez das malhas da justiça. Ainda hoje anda a monte, iludindo polícia, críticos literários e acumulando um sem fim de devoluções em atraso em várias bibliotecas por aí.

9 de Julho de 2012  1 Comentário

O amor aquece os pés

Vivi com Semyonovna uma linda história de amor. Nunca mais me esqueço das palavras por ela proferidas naquele dia 23 de Outubro em São Petersburgo. Estávamos ambos regalados a olhar para o rio Neva quando ela se vira para mim e diz, sem pestanejar: “És um idiota”. Foi naquela altura em que pensei: afinal tenho uma hipótese com ela!

Normalmente, Semyonovna ignorava a minha presença por completo. Numa ocasião calhou ela de vir de coche na minha direcção, tendo eu de me lançar para a valeta de forma a não ser espezinhado pelos cavalos. Isto ilustra que ela não me via, de todo. Mas naquele dia 12 de Janeiro (lembro-me perfeitamente daquele dia), em São Petersburgo, vi em Semyonovna o primeiro sinal de que aquela sua maleita a nível ocular se começava a dissipar. “És um idiota”, disse ela. E tinha toda a razão. Semyonovna, além de não ser feia de todo, revelava-se bastante perspicaz na altura de topar idiotas.  “Nunca te perdoarei por teres matado a velha, Raskolnikov”.

O episódio a que ela se referia foi a um pequeno homicídio, coisa pouca, por mim cometido na semana passada. Matei uma velhota indigente sem dó nem piedade. Semyonovna ficou revoltada, como seria de esperar, pois estava à espera que eu tivesse assassinado brutalmente dois indivíduos a quem ela devia imenso dinheiro. Mas não. Fui assassinar uma velha que não lhe tinha cometido nenhum acto particularmente desagradável. Tinha sido um homicídio mal-direccionado e que não provava o lindo e belo amor que eu dizia nutrir por ela, no entender de Semyonovna.

Mas as coisas mudam. Naquela noite, sucumbindo ao meu charme e a 10 shots de absinto com uma pitada de rohypnol, Semyonovna acabaria por partilhar o leito comigo. Naquela noite adormecemos abraçados um ao outro. O amor é isto. O amor aquece os pés.

8 de Julho de 2012  Publicar um comentário

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