A propósito do tempo que passa

 A propósito do tempo que passa

Todos os dias, ela abria o jor­nal e folhe­ava a sec­ção da necro­lo­gia. O facto de o seu nome não cons­tar lá tranquilizava-a.

Ela gos­tava de incor­po­rar ritu­ais e ges­tos ensai­a­dos que, pela repe­ti­ção, pas­sa­vam a ser fami­li­a­res, ate­nu­ando a estra­nheza que ela sen­tia em habi­tar o seu pró­prio corpo. Era uma cri­a­tura dada a lúgu­bres incli­na­ções. Quando mor­resse, que­ria que na már­more fosse ins­crito um epi­tá­fio catita. Ela sor­ria e pro­fe­ria pala­vras como catita quando falava de assun­tos sérios, como a morte, para que não dei­xas­sem de ser sérios.

Às vezes dei­xava de sen­tir o chão, como se tudo esti­vesse a desa­bar e o mundo a esti­vesse pres­tes a engo­lir. Ou como se ela esti­vesse a levi­tar, pai­rando lá no alto, num lugar onde o olhar não chega e que só em qui­me­ras se alcança.

Isto a pro­pó­sito do tempo que passa.

É o que dá sair de casa sem cal­ças
O maior erro de Eins­tein

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2 Comentários

  • Dragonball

    Escreve um livro: eu saco o pdf. Já agora: rela­ci­o­nando a ima­gem, com o facto de ela não mor­rer, con­cluo que seja chi­nesa. Existe aquele mito urbano que os chi­ne­ses não morrem.

    11/28/11 – 1:27

  • José Durães

    Fico extre­ma­mente inco­mo­dado com o teu comen­tá­rio. Quando publi­car um livro irei pre­fe­rir cer­ta­mente o for­mato azw.

    Rela­ti­va­mente a mitos rurais não me pro­nun­cio, pois não sou grande conhe­ce­dor. Pre­firo a ver­tente mais bucó­lica expressa pelos mitos rurais. Esta temá­tica tem sido sis­te­má­ti­ca­mente igno­rada pela indús­tria de entretenimento.

    11/28/11 – 1:44

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