A propósito do tempo que passa

Todos os dias, ela abria o jornal e folheava a secção da necrologia. O facto de o seu nome não constar lá tranquilizava-a.

Ela gostava de incorporar rituais e gestos ensaiados que, pela repetição, passavam a ser familiares, atenuando a estranheza que ela sentia em habitar o seu próprio corpo. Era uma criatura dada a lúgubres inclinações. Quando morresse, queria que na mármore fosse inscrito um epitáfio catita. Ela sorria e proferia palavras como catita quando falava de assuntos sérios, como a morte, para que não deixassem de ser sérios.

Às vezes deixava de sentir o chão, como se tudo estivesse a desabar e o mundo a estivesse prestes a engolir. Ou como se ela estivesse a levitar, pairando lá no alto, num lugar onde o olhar não chega e que só em quimeras se alcança.

Isto a propósito do tempo que passa.

28 de Novembro de 2011

2 responses to A propósito do tempo que passa

  1. Dragonball said:

    Escreve um livro: eu saco o pdf. Já agora: relacionando a imagem, com o facto de ela não morrer, concluo que seja chinesa. Existe aquele mito urbano que os chineses não morrem.

    • Fico extremamente incomodado com o teu comentário. Quando publicar um livro irei preferir certamente o formato azw.

      Relativamente a mitos rurais não me pronuncio, pois não sou grande conhecedor. Prefiro a vertente mais bucólica expressa pelos mitos rurais. Esta temática tem sido sistemáticamente ignorada pela indústria de entretenimento.

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