Amor sem fim e sem chulé

Aquilino não gostava de ofender as pessoas pela internet. Através do computador, não conseguia receber valentes pares de estalos na cara. Os estalos por ele recepcionados e a veemência com que eram desferidos permitiam-lhe avaliar o impacto das suas provocações. Impossibilitado de escutar a frequência da reverberação das suas bochechas, sem conseguir ver o ódio flamejante no olhar do seu interlocutor, Aquilino sentia-se perdido. Através do chat, os smileys que recebia sinalizando desagrado eram todos iguais. Uma massa indistina de círculos amarelos com toscos traços que não conseguiam captar todas as nuances da paleta de expressões do rosto humano. Aquilino ansiava por uma ligação emocional real. Queria ser ele o objecto de ódio e de desprezo e não a sua alcunha no IRC, joel_lisboa_19, o ponto onde todo o azedume confluísse. De repente apaixonou-se e passou a ser um homem bom. Aquela máquina de cortar relva por quem Aquilino se enamorou ensinou-o a amar. Passados uns tempos, Aquilino ganhou tino e trocou-a por uma voluptuosa mulher russa chamada Iegvenia. A sua relação de Iegvenia era muito mais carnal. Aquilino vivia num apartamento, sem quintal ou qualquer outro tipo de espaço verde, pelo que aquele envolvimento com a máquina de cortar relva estava destinado ao fracasso desde o início. Além disso, a máquina era muito imatura emocionalmente. Iegvenia ria-se das piadas de Aquilino. Pela primeira vez na vida, este sentia-se feliz.

11 de Junho de 2012

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