Amor sem fim e sem chulé

Aqui­lino não gos­tava de ofen­der as pes­soas pela inter­net. Atra­vés do com­pu­ta­dor, não con­se­guia rece­ber valen­tes pares de esta­los na cara. Os esta­los por ele recep­ci­o­na­dos e a vee­mên­cia com que eram des­fe­ri­dos permitiam-lhe ava­liar o impacto das suas pro­vo­ca­ções. Impos­si­bi­li­tado de escu­tar a frequên­cia da rever­be­ra­ção das suas boche­chas, sem con­se­guir ver o ódio fla­me­jante no olhar do seu inter­lo­cu­tor, Aqui­lino sentia-se per­dido. Atra­vés do chat, os smi­leys que rece­bia sina­li­zando desa­grado eram todos iguais. Uma massa indis­tina de cír­cu­los ama­re­los com tos­cos tra­ços que não con­se­guiam cap­tar todas as nuan­ces da paleta de expres­sões do rosto humano. Aqui­lino ansi­ava por uma liga­ção emo­ci­o­nal real. Que­ria ser ele o objecto de ódio e de des­prezo e não a sua alcu­nha no IRC, joel_lisboa_19, o ponto onde todo o aze­dume con­fluísse. De repente apaixonou-se e pas­sou a ser um homem bom. Aquela máquina de cor­tar relva por quem Aqui­lino se ena­mo­rou ensinou-o a amar. Pas­sa­dos uns tem­pos, Aqui­lino ganhou tino e trocou-a por uma volup­tu­osa mulher russa cha­mada Ieg­ve­nia. A sua rela­ção de Ieg­ve­nia era muito mais car­nal. Aqui­lino vivia num apar­ta­mento, sem quin­tal ou qual­quer outro tipo de espaço verde, pelo que aquele envol­vi­mento com a máquina de cor­tar relva estava des­ti­nado ao fra­casso desde o iní­cio. Além disso, a máquina era muito ima­tura emo­ci­o­nal­mente. Ieg­ve­nia ria-se das pia­das de Aqui­lino. Pela pri­meira vez na vida, este sentia-se feliz.

O amor aquece os pés
Pro­ble­mas que podem arre­liar cer­tas pes­soas a par­tir de 2050

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