Coisas que acontecem com alguma regularidade

“Meus amigos, o motivo pelo qual vos convoquei é bastante sério.”

Olegário mantinha uma postura grave. Ninguém ousava duvidar das suas palavras. O assunto devia mesmo ser sério, a julgar pelo cuidado que Olegário mantinha com a sua aparência, uma característica nele invulgar. Por exemplo, não tinha as calças descaídas e por consequência as cuecas à mostra, como habitualmente. Além disso, naquele dia não ia dar nenhum jogo de futebol na televisão e não havia cerveja no frigorífico. Porque razão teria Olegário convocado todos os seus amigos para vir a sua casa naquela noite?

Olegário, aproveitando a deixa do narrador, não perdeu tempo: “Meus amigos, vou então satisfazer a vossa curiosidade. É o seguinte: o mundo vai acabar dentro de 45 minutos.”

Imediatamente se gerou uma enorma comoção. Todos os presentes entraram em desespero. O mundo ia acabar e todos sabiam muito bem o que isso significava.

“Ai meu deus, lembrei-me agora que saí de casa e esqueci-me de desligar o fogão!” Exclamou Simone. “Vai ser bonita a conta da electricidade no final do mês, vai!”

Toda a gente começou num coro de gritos e pranto.

“Meus amigos, não vos inquieteis” Olegário sabia bem como serenar os ânimos. “O mundo vai terminar, o que quer dizer que com isso todos os vossos sonhos, tudo aquilo que vocês sempre quiseram fazer de forma a dar significado à vossa patética existência, nada disso importa mais. Em breve já não terão de se preocupar com isso.

“Peço desculpa”, Protestou Arlindo, “mas agora já só faltam 42 minutos, entretanto já decorreram 3. O mundo vai acabar, tudo bem, mas isso não é desculpa para começar com imprecisões. Daqui a pouco isto tudo é uma bandalheira e começamos a ter sexo uns com os outros”

“Não era mal pensado, não senhor.” Interveio Adalberto. “Parece-me um excelente pretexto para se conseguir levar alguém para a cama. Realmente é pena o mundo não voltar a acabar mais vezes.”

Olegário insurgiu-se: “Vamos tentar manter a seriedade, que já estou a ver isto a descambar. Temos outros assuntos a falar primeiro. Depois de discutidos, aí sim podemos enrolar-nos uns com os outros e terminar os derradeiros instantes da nossa existência com um lindo orgasmo colectivo. Simone, designo-te a secretária desta reunião. Ficas responsável por escrever a acta.

“Sou sempre eu a escrever a acta”, protestou Simone. “Não é justo”

“De todos nós, és tu que tens a caligrafia mais bonita”, justificou Adalberto.

Todos concordaram com aquela decisão. Simone ainda protestou, dizendo algo do género “isso não faz sentido, a acta é sempre escrita no computador”, mas a sua voz foi abafada pelo entusiasmo de todos os presentes. O estado geral era de euforia.

De repente, entra em casa a mãe de Olegário, uma senhora nos seus 90 anos. A sua chegada não estava prevista. Imediatamente cessou todo aquele sururu e se fez um silêncio sepulcral. A mãe de Olegário olhou para todos os presentes, estupefacta. Suspirou e disse por fim:

“Não me digam que estão outra vez a brincar ao fim do mundo. Sinceramente, estou muito desiludida convosco!”

Todos desviavam o olhar, cabisbaixos, sem saberem o que responder.

A anciã continuou: “Já era altura de pararem com esta fantochada e crescerem um pouco. Onde é que já se viu, adultos com família e responsabilidades a perderem tempo com estas coisas, estas brincadeiras. Tenham vergonha na cara!”

Durante aquilo que pareceram quatro minutos mas que na realidade foram três ninguém disse palavra. Olegário ainda tentou dizer alguma coisa mas ficou sem jeito. Perante aquelas palavras, que poderiam eles dizer?

Finalmente, a mãe de Olegário decidiu por termo àquele penoso silêncio:

“Bem, vejo que estão todos vestidos. Isso quer dizer que ainda cheguei a tempo. Vamos então tirar a roupa?”

9 de Agosto de 2012

2 responses to Coisas que acontecem com alguma regularidade

  1. Como é que a Simone ia ter uma conta enorme de electricidade quando o que deixou ligado foi o fogão?

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