Como devo olhar para ti?

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O caso de Simone era sin­gu­lar, como o de toda a gente. Simone tinha vir­tu­des, omis­sões, e o defeito de pos­suir dema­si­a­das vir­tu­des, o que a impe­dia de tirar mais par­tido da vida. Osci­lava, inva­ri­a­vel­mente, entre e o mili­tan­tismo cívico activo e o con­for­mismo, con­so­ante esti­vesse ou não a dar algo de jeito na tele­vi­são. Apre­ci­ava rum e dubs­tep, mas em doses mode­ra­das (o dubs­tep, não o rum).

Durante a sua infân­cia, um con­junto de cir­cuns­tân­cias fize­ram Simone acre­di­tar na ideia de que era ela melhor vista de forma inter­mi­tente, querendo-se com isto dizer que a sua com­pa­nhia só era tole­rada em peque­nas doses, devi­da­mente espa­ça­das. Alguns anos vol­vi­dos, esta sua per­cep­ção iria mudar radicalmente.

Tudo foi des­po­le­tado com a lei­tura de The Pic­ture of Dorian Gray. Nas pala­vras de Oscar Wilde, “the bra­vest man among us is afraid of him­self”. Esta frase fez res­so­nân­cia em Simone. Deci­dida a conhecer-se melhor, a tes­tar os seus limi­tes e a elucidar-se acerca do rumo que real­mente dese­java impri­mir à sua vida, resol­veu embar­car numa via­gem de auto-descoberta. Natu­ral­mente, isso con­sis­tiu em res­pon­deu a um ques­ti­o­ná­rio duma revista diri­gida ao público feminino.

As suas res­pos­tas, além de lhe terem indi­cado as cores mais ade­qua­das para a pró­xima esta­ção, revelaram-lhe o seguinte: afi­nal de con­tas, Simone ficava era melhor vista de perfil.

Munida desta infor­ma­ção, Simone pas­sou a ence­tar tra­jec­tó­rias oblí­quas rela­ti­va­mente aos res­tan­tes tran­seun­tes, de forma a colo­car em evi­dên­cia a sua faceta mais favo­rá­vel. No entanto, esta abor­da­gem não cor­reu lá muito bem. A forma como ela se des­lo­cava, afi­nal de con­tas, estor­vava as res­tan­tes pessoas.

As reac­ções de aze­dume perante as bizar­ras tra­jec­tó­rias de Simone não se fize­ram espe­rar. Um indi­ví­duo mais irado disse a Simone, inclu­sivé, que esta ficava melhor mas era vista de relance, afir­ma­ção que a dei­xou deve­ras desgostosa.

Refugiou-se no seu lar. Naque­les dias, devido a um desi­qui­lí­brio nos seus níveis de sero­to­nina, Simone andava taci­turna. Come­çou a colocar-se à janela, sus­pi­rando. A par­tir da janela do seu apar­ta­mento, no 1º andar, punha-se dia­ri­a­mente a obser­var a massa indis­tinta de vul­tos que cal­cor­re­ava a rua. A vida era madrasta.

Foi então que, subi­ta­mente, se aper­ce­beu que algo estava a acontecer.

Simone come­çou a assi­na­lar, da parte de quem pas­sava na rua e a mirava à janela, um certo sobres­salto. As pes­soas esta­ca­vam diante do seu pré­dio e arre­ga­la­vam os olhos, estu­pe­fac­tas. Vis­lum­brada daquela forma, num plano contra-picado, Simone afigurava-se uma figura impo­nente, pro­vo­cando no obser­va­dor uma reve­rên­cia e admi­ra­ção profundas.

Estava encon­trado o seu melhor ângulo.

Des­culpe, sou eu o visado?
Pro­curo senhora de meia-idade para rela­ci­o­na­mento sério

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4 Comentários

  • Rafeiro Perfumado

    Deixa-me adi­vi­nhar: estava nua à janela…

    10/26/11 – 9:24

  • José Durães

    Com­ple­ta­mente nua não deve­ria estar. Creio que pelo menos teve o bom senso de colo­car um par de meias.

    10/26/11 – 18:04

  • Rafeiro Perfumado

    Até a estou a ver, depen­du­rada na janela, com os seios enri­je­ci­dos pelo frio, com uma meia pen­du­rada em cada ore­lha. Quem não olharia?

    10/26/11 – 8:47

  • José Durães

    Não sei não, olha que há gente muito púdica. Falo de pes­soal pre­con­cei­tu­oso e retró­grado que asso­cia ime­di­a­ta­mente meias dis­per­sas a maus odores.

    10/26/11 – 16:45

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