Como proceder a um saudável intercâmbio de insultos

Um dos maiores desafios com que o ser humano se depara constantemente (além o de conseguir confeccionar um bom crème brulée, com a caramelização mesmo no ponto) é o de encontrar um local onde possa lançar impropérios em público, sem ser olhado de soslaio. Arranjar sítios onde seja socialmente aceitável falar de forma desbragada, debitar vernáculo que nem um alarve e insultar as mães de terceiros nem sempre é fácil.

Felizmente, existem edifícios que foram construídos para o efeito, e onde um indivíduo se pode dirigir para, de forma moderadamente confortável e num lugar sentado, enxovalhar outros indivíduos. Hoje em dia, alguém que pretenda entrar numa contenda verbal plena em azedume que não seja vista reticentemente pelos demais pares pode dirigir-se, por exemplo, a um estádio de futebol. Aí, pode interpelar uma das equipas, inclusivé a de arbitragem, e dizer coisas desagradáveis, desde levantar a hipótese de existência de problemas oftalmológicos, criticar a idoneidade do árbitro ou até chamar-lhe nomes feios, como Firmino. Para muitos pais, este é o palco ideal para proceder à iniciação da sua prole na nobre arte da utilização do vernáculo como forma de achincalhar.

Outro local onde é aceitável debitar chorrilhos de insultos é ao volante. Aí, o seu intercâmbio está já institucionalizado e enraizado na sociedade, o que torna o automóvel um local especialmente indicado para enveredar pelo insulto de azelhas (ou seja, todos os restantes condutores, e até peões, que se julgam donos da passadeira). Os menos confiantes podem até socorrer-se da buzina, para se tornarem mais assertivos na ofensa. Embora estes factos sejam do conhecimento geral, nem sempre as pessoas tiram partido do automóvel. Acho mal às vezes deparar-me com pessoas em efervescentes altercações em plena via pública. Se optarem por se achincalharem mutuamente, ao menos que se dirijam às respectivas viaturas e o façam a partir de lá, para tornar a coisa mais agradável tanto para os intervenientes como para os transeuntes e mais adequada socialmente.

Voltando à utilização da buzina, há um ponto que nem sempre é tido em conta pelos automobilistas. O insulto deve ser sempre precedido da uma buzinadela. A ausência desta cortesia revela uma tremenda falta de respeito pelas convenções de intercâmbio de insultos envolvendo encolerizados condutores de automóveis ligeiros, pesados e tractores. A buzinadela deve sempre anteceder o ponto de ebulição, indicado que está iminente. O facto de certas pessoas não terem isto em conta e partirem imediatamente para o insulto sem a devida sinalização sonora prévia mostra que são pouco civilizadas. Tenho dito.

4 de Agosto de 2011

One response to Como proceder a um saudável intercâmbio de insultos

  1. Liliana said:

    Da próxima vez que estiver no banco do pendura, num certo toyota corolla, vais levar uma buzinadela! :p

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