Desculpe, sou eu o visado?

Um indivíduo entra de rompante na sala. A indignação está-lhe indubitavelmente estampada no rosto. Brada de imediato, numa voz cavernosa: “Você é um palerma!”. Todos os presentes ficam sobressaltados.

Aquilino resolve inquirir: “Desculpe, sou eu o visado?”

“Não não, estava a dirigir-me ao idiota que está sentado a seu lado.”

“Mas ele é idiota ou palerma?”

“Ambos. Tanto é idiota como palerma, embora com uma preponderância superior no que à idiotice diz respeito. E bastante obtuso, também.”

“Permita-me que lhe diga, acho os insultos que dirige a este cavalheiro completamente desprovidos de originalidade. Nem sequer fez referência aos hábitos de higiene dele, ou melhor, à total ausência deles. Outras características saltam também à vista, tais como a sua extrema fealdade e voz esganiçada. Poderia igualmente ter ridicularizado a sua absurda e paupérrima colecção de selos.”

“Bem visto. Não primo pela originalidade, de facto. Vou ter isso em conta quando, futuramente, achincalhar esse atrevido!”

“Atrevido? Calma, também não é preciso ofendê-lo dessa forma. Veja lá se rectifica essa atitude. Mas não se preocupe. Decerto que esta besta o afectou, a si, com alguma vil acção que o tornou merecedor de ser alvo de chacota em público e de lhe serem desferidas as mais rudes ofensas.”

“Pois, nem calcula a desfaçatez do gajo. Mas Isto não fica assim, não. Eu voltarei! Adeus.”.

O indignado abandona, a sala, batendo a porta com estrondo atrás de si. De forma a aumentar o efeito dramático presente nesta cena, já de si surreal, um quadro que estava pendurado na parede resolveu atirar-se ao chão. Os restantes quadros, menos afoitos, mantiveram-se impávidos e serenos, permanecendo enganchados nos respectivos pregos. Alguns deles protestaram, entredentes, contra o animismo presente neste parágrafo.

Por momentos, todas as pessoas presentes na sala ficaram sem saber o que dizer. Teutónio, o alvo dos insultos, assistiu a tudo sem balbuciar uma palavra, sequer. Estava estupefacto. Aquilino vira-se então para ele, olhos nos olhos, e diz-lhe:

“Bem, que desagradável da parte daquele moço ter interrompido a nossa conversa. Com isto tudo já perdi o fio à meada. Onde é que nos íamos, Teotónio?”

“Mal posso acreditar… Pensei que éramos amigos… Tu não gostas dos meus selos?”


A imagem que acompanha este post foi gentilmente pilhada daqui.

28 de Outubro de 2011

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