É o que dá sair de casa sem calças

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Mais uma vez, Aqui­lino tinha saído de casa sem cal­ças. A situ­a­ção não era iné­dita e, além de não ser iné­dita, era recor­rente. Aqui­lino era bas­tante dis­traído e andava cons­tan­te­mente com a cabeça na lua, espe­ci­al­mente desde que o agru­pa­mento musi­cal “os luná­ti­cos” lan­çou o “estou na lua”, na década de 90. Só na semana pas­sada, as cal­ças tinham ficado em casa por duas oca­siões, com a agra­vante de Aqui­lino só se ter aper­ce­bido da situ­a­ção quando che­gou ao trabalho.

Escu­sado será de dizer, todo este imbró­glio fazia com que fosse Aqui­lino fosse alvo de cha­cota por parte dos seus cole­gas de tra­ba­lho. Nes­sas oca­siões, Aqui­lino ficava numa posi­ção vul­ne­rá­vel, de boxers do bat­man à mos­tra, enquanto os seus cole­gas se riam que nem uns alar­ves daquela figura cari­cata. Quase toda a malta do escri­tó­rio, patrão incluído, ido­la­trava as per­so­na­gens das ban­das dese­nha­das da Mar­vel e abo­mi­nava as res­tan­tes, pelo que reser­vava reac­ções de des­dém ao invés de estron­do­sas ova­ções e pro­pos­tas de cariz sexual a pes­soas que expu­ses­sem publi­ca­mente per­so­na­gens da DC Comics.

Lá na firma, o Aqui­lino tem o tra­di­ci­o­nal emprego de escri­tó­rio: tra­ba­lha num cubí­culo. Como é que ele che­gou até esta posi­ção? Bem, para expli­car isto terei de retro­ce­der no tempo. Bem, para expli­car isto terei de retro­ce­der no tempo. Peço des­culpa. Enganei-me, tenho de retro­ce­der ainda mais. Agora sim. No mês pas­sado, o depar­ta­mento res­pon­sá­vel por iden­ti­fi­car nichos de mer­cado fez uma des­co­berta sur­pre­en­dente. Esta­vam entre­ti­dos a fare­jar nichos de mer­cado quando iden­ti­fi­ca­ram uma área por explorar.

O mérito desta des­co­berta vai para Sebas­tião, o tra­ba­lha­dor mais com­pe­tente da empresa. Sebas­tião, sendo uma cri­a­tura de qua­tro patas, mais pre­ci­sa­mente um cão de raça fox ter­rier, dili­gen­te­mente ladrou para o resto da equipa uma série de ori­en­ta­ções. De seguida, alçou a pata e uri­nou no mapa a área geo­grá­fica onde estava loca­li­zado o público alvo da empresa. Neste caso, enchar­cou por inteiro um mapa-mundo. Estava visto que a empresa iria ter de abdi­car das suas ambi­ções comer­ci­ais em Vénus e pas­sar a concentrar-se no pla­neta Terra. No final desta tarefa, o resto da equipa foi recom­pen­sado com um osso cada um e a Sebas­tião foi atri­buído um salá­rio chorudo.

Estava visto que era no pla­neta terra que esta­vam as opor­tu­ni­da­des. A empresa era vista como uma ganan­ci­osa cor­po­ra­ção maqui­a­vé­lica que pegava nos direi­tos dos tra­ba­lha­do­res, dava-lhes um cafuné, e de seguida dei­tava esses mes­mos direi­tos numa fogueira onde cre­pi­ta­vam laba­re­das enor­mes. Nem toda a gente par­ti­lhava desta opi­nião. As pes­soas que nunca tinham ouvido falar da empresa não acha­vam isso, mas ainda assim havia cla­ra­mente que fazer algo para melho­rar a ima­gem da empresa. Nor­mal­mente os pro­ble­mas da empresa eram resol­vi­dos envi­ando resí­duos tóxi­cos para paí­ses de ter­ceiro mundo. Con­tudo, neste caso era neces­sá­rio adop­tar uma solu­ção mais enge­nhosa, até por­que já não sobra­vam mais paí­ses do ter­ceiro mundo para recep­ci­o­nar entu­lho da empresa. Que fazer então? Era altura de fazer uma apre­sen­ta­ção power­point sobre o problema.

Foi então ela­bo­rada uma apre­sen­ta­ção power­point des­cre­vendo o pro­blema de cre­di­bi­li­dade da empresa. De seguida, foi feita uma apre­sen­ta­ção à admi­nis­tra­ção. Recolheram-se pare­ce­res de 7 admi­nis­tra­do­res e feed­back de outros 3. Com essas opi­niões, o power­point foi rec­ti­fi­cado, alte­rando os grá­fi­cos de bar­ras para grá­fi­cos cir­cu­la­res, para gáu­dio de todos. Após essa modi­fi­ca­ção, o power­point ficou bem mais inci­sivo. O pre­si­dente da empresa, apercebendo-se final­mente da gra­vi­dade do pro­blema que tinha em mãos, deci­diu ence­tar uma lide­rança firme e deci­dida, e não per­deu tempo: dele­gou, de ime­di­ato, a tarefa de encon­trar uma solu­ção nou­tra pessoa.

Como Sebas­tião tinha sido preso entre­tanto devido à con­tra­fac­ção de comida para gato, o pre­si­dente son­dou a 2ª pes­soa mais com­pe­tente que conhe­cia. A esco­lha recaiu em Eze­quiel, um esta­feta que cos­tu­mava entre­gar as piz­zas no escri­tó­rio. Eze­quiel, tendo visto Aqui­lino no outro dia a enver­gar os boxers do bat­man, ganhou uma empa­tia grande para com ele, pois gos­tava bas­tante do Chris­tian Bale, tendo alguns pos­ters dele (do bat­man) em casa, na sala, e tam­bém outros dele (do Chris­tian Bale) no quarto.

Ocor­reu a Eze­quiel uma ideia. A empresa tinha um pro­duto revo­lu­ci­o­ná­rio que os cli­en­tes tinham difi­cul­dade em uti­li­zar, devido à sua extrema com­ple­xi­dade, dado que nem os seus pró­prios inven­to­res sabiam muito bem para que ser­via. E que tal se, jun­ta­mente com o pro­duto, fosse empa­co­tado e expe­dido um assis­tente pes­soal? O cli­ente, ao recep­ci­o­nar e abrir a enco­menda, depara-se então com uma inter­ven­ção per­so­na­li­zada. Como que impul­si­o­nado por uma mola, o assis­tente salta da caixa, ainda a cus­pir esfe­ro­vite, e de bra­ços aber­tos entu­si­as­ti­ca­mente con­gra­tula o cli­ente pela aqui­si­ção do pro­duto, ficando dis­po­ní­vel dis­po­ní­vel para aju­dar na con­fi­gu­ra­ção do mesmo bem como para solu­ci­o­nar todas as dúvi­das. Par­tindo do prin­cí­pio que no final do período de ins­tru­ção o assis­tente não é feito refém afim de lhe serem reti­ra­dos os orgãos, a ideia tinha per­nas para andar. Aqui­lino seria então o eleito para levar a cabo esta tarefa.

A ideia foi exposta ao patrão, que bateu pal­mas entu­si­as­ti­ca­mente e de seguida disse nem pen­sar, a ideia não serve. Era sinal que tinha ado­rado a suges­tão, dado que o patrão pade­cia de um sín­drome que pro­vo­cava uma incon­gruên­cia entre a sua comu­ni­ca­ção ver­bal e ges­tual, sendo que  a ges­tual pre­va­le­cia nes­ses casos. A ideia avançou.

Actu­al­mente, Aqui­lino viaja por todo o mundo. Paris, Lon­dres, Tóquio, Sin­ga­pura, Alen­quer. As via­gens são pas­sa­das den­tro de uma caixa, aos sola­van­cos, em com­par­ti­men­tos de carga dos mais vari­a­dos trans­por­tes aéreos, marí­ti­mos e eques­tres. No entanto, a par­tir de dois ori­fí­cios da caixa, con­se­gue vis­lum­brar silhu­e­tas, e essa vista pri­ve­li­gi­ada nin­guém lhe tira. A inte­rac­ção com os cli­en­tes é a parte mais ali­ci­ante e todos são bas­tante afá­veis. Uma altura, Aqui­lino foi bale­ado 6 vezes por um cli­ente que não estava a con­tar que um vulto sal­tasse da caixa e se assus­tou. No entanto, o dito cli­ente pediu-lhe des­culpa na hora, enquanto a ambu­lân­cia che­gava, mal se aper­ce­beu que tinha sido um mal-entendido. Mais tarde, depois Aqui­lino ter pas­sado 8 sema­nas no hos­pi­tal em con­va­les­cença, ele e o cli­ente até se con­se­gui­ram rir de toda aquela situ­a­ção. Há sem­pre peri­pé­cias engra­ça­das para contar.

A ideia tinha resul­tado em pleno: A nível de rela­ções públi­cas, conferia-se um rosto humano a uma ganan­ci­osa cor­po­ra­ção maqui­a­vé­lica conhe­cida por pegar nos direi­tos dos seus tra­ba­lha­do­res, afagá-los sua­ve­mente, e de seguida pegar nes­ses mes­mos direi­tos e deitar-lhes ácido cor­ro­sivo por cima. Em ter­mos eco­nó­mi­cos, poupava-se e muito na impres­são de manu­ais em papel. O ambi­ente agradece.

O kin­dle sur­presa
A pro­pó­sito do tempo que passa

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