Em caso de emergência

Há momentos em que as crianças demonstram um elevado grau de erudição, conseguindo surpreender-nos com a sua visão singular do mundo. Observações sagazes e espirituosas que nos fazem esboçar um sorriso. Ou isso ou então pode calhar de estarem a retirar compulsivamente catotas do nariz e a ingeri-las imediatamente. No entanto são momentos como os que eu relato de seguida que fazem tudo isso valer a pena.

 Estava eu a viajar de comboio, refastelado no meu lugar. À minha frente ia um pai acompanhado pelo filho. O petiz encontrava-se na idade dos porquês, pelo que ia constantemente formulando questões existenciais, neste caso sobre comboios. O olhar do puto fixou-se no martelo emoldurado, destinado a estilhaçar o vidro do comboio em “caso de emergência”, tal como o aviso adjacente sussurava.

“Pai, como é que se tira o martelo dali?”, perguntou, parecendo julgar que seria necessário um segundo martelo destinado a libertar o primeiro da sua prisão de acrílico.

“Ó filho, aquilo é plástico, é fácil tirar o martelo.”

“E depois, para que serve?”

“Em caso de emergência, se for preciso, parte-se o vidro do comboio com o martelo para as pessoas poderem sair”

Diz então o miúdo, com preocupação estampada no rosto: “Ai é? Mas assim as pessoas depois têm de ir a pé!”

14 de Janeiro de 2011

2 responses to Em caso de emergência

  1. Cláudia said:

    O sedentarismo manifesta-se desde a mais tenra idade… Tsc tsc.

  2. José Durães said:

    É verdade, Cláudia. Aproveito para acrescentar que a preguiça é o caminho que conduz à eficiência.

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