Enquanto estamos à espera

Estou neste momento numa fila de espera. Onde me leva esta fila? Não é isso o mais impor­tante. Há uns anos, um pro­fes­sor bri­tâ­nico contou-me algo que eu na altura achei curi­oso. Em Ingla­terra, não é insó­lito ver senho­ras ido­sas dirigirem-se a filas de espera em locais públi­cos, movi­das por um único pro­pó­sito: o de meter con­versa com quem lá aguarda. A soli­dão é tra­mada. Que é como quem diz, esta­mos todos jun­tos nisto, vamos todos para o mesmo lado, por isso faça­mos então com­pa­nhia uns aos outros entretanto.

A vida é uma inces­sante espera. Há quem esteja à espera que lhe digam alguma coisa. Há quem diga: “podes espe­rar sen­tado”. Há quem esteja à espera que a outra parte se decida. Há quem se decida, mas quando final­mente se decide já é tarde demais, já não há nin­guém à espera. Quando toma­mos a ini­ci­a­tiva de mar­car algo, há que aguar­dar con­fir­ma­ção. E, no dia em que se mar­cou, há que espe­rar que toda a gente que con­fir­mou che­gue. E há quem espere, e acre­dite, que algo de sur­pre­en­dente ainda irá acon­te­cer, que a vida tem de ser mais do que isto isto.

B Fachada inter­preta o tema “estar à espera ou pro­cu­rar”. O que sus­cita a ques­tão: qual será a melhor abor­da­gem, estar à espera ou pro­cu­rar? Pode­mos pro­cu­rar o tempo todo que qui­ser­mos, mas se não sou­ber­mos o que que pro­cu­ra­mos, não adi­anta de nada. E aquilo que pro­cu­ra­mos não é, mui­tas das vezes, aquilo que real­mente que­re­mos ou que ver­da­dei­ra­mente nos faz falta. Há que saber espe­rar. Estar à espera não é uma ati­tude pas­siva, não é dei­xar andar. Estar à espera é estar desa­tento, mas pre­pa­rado para a even­tu­a­li­dade. É final­mente encon­trar e pen­sar que, afi­nal de con­tas, nada nos pre­pa­rou para aquele momento. E que ainda bem que assim foi. Não deve­mos pro­cu­rar. Quando se está à espera e se encon­tra, é dupla­mente recom­pen­sa­dor. Encon­trar quando não se está à pro­cura sabe muito bem. Melhor, só mesmo encon­trar quando nem sequer se está à espera.

Adeus, 2011
Um caso bicudo

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3 Comentários

  • Rafeiro Perfumado

    Tive um tio que era apo­lo­gista de espe­rar em vez de pro­cu­rar. Não tinha emprego e então ficava no quin­tal da casa dos pais, vendo o dia pas­sar, enquanto dizia “eu tenho fé em Deus”. Não tives­sem dois outros fami­li­a­res arran­jado emprego para ele e ainda hoje lá esta­ria, com ervas a cres­cer à volta da peidola.

    Abraço!

    12/15/11 – 0:00

  • Rafeiro Perfumado

    O outro comen­tá­rio foi? Porra, era dema­si­ado grande para o vol­tar a escrever…

    12/15/11 – 17:00

  • José Durães

    Penso que está tudo ok com o teu último comen­tá­rio. É o que está acima, certo?

    12/15/11 – 17:04

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