Já fui muito feliz nos Açores – Parte 2

Peguem num touro, atem-lhe um corda com algumas centenas de metros a uma das patas, coloquem um conjunto de moços na retaguarda a segurar a corda deixem o touro à solta na rua, polvilhem “tascas” de comes e bebes pela rua fora e coloquem umas bancadas para que famílias inteiras possam assistir. Adicionem moços (mais ou menos) alcoolizados que se decidem colocar à frente do touro empunhando guarda-chuvas bastante coloridos e preparem-se para uma tarde extremamente divertida.

Eu e o resto da comitiva fomos estudar o fenómeno sociológico das touradas à corda, sem dúvida o desporto rei a nível terceirense. Imaginem vídeos das touradas a passarem nos televisores da ilha na mesma proporção com que pelo continente se passa futebol e já ficam com uma noção da popularidade do fenómeno. Aliás, eu não vi, mas aposto que a SportTV açoriana só transmite touradas, rodeos e mulheres em bikini a montar touros mecânicos.

Durante a viagem para a Fonte da Vila S. Sebastião, onde iria decorrer uma tourada nesse dia, o televisor do autocarro ia-nos brindados com uma compilação de momentos dos anos anteriores, pelo que tive oportunidade de comprovar a excelente pontaria do touro na hora de hora de atestar uma cornada (também conhecida por dose de humildade) bem assente em moços que não conseguiram sair da frente a tempo também pude exprimir alguma consternação ao ver a destruição de tantos guarda-chuvas.

Para ajudar a conseguirem-se esquivar do touro, inúmeros moços partiam para cima deste empunhando guarda-chuvas ou toalhas. À medida que o tempo passa, aumenta o consumo de álcool e os touros largados vão sendo ligeiramente mais franzinos. A mistura destes dois factores faz com que cada vez mais gente ache giro atravessar-se à frente de um touro. Tendo sido informado disto, estava já à espera de que as coisas mais espectaculares acontecessem mais para o final.

Fui para as bancadas. Procurei a claque de apoio à equipa dos touros, mas não a encontrei. De vez em quando os espectadores batiam palmas, e eu sem compreender porquê. Entre algumas viagens às barracas de comes e bebes fui apreendendo o fenómeno sociológico das touradas à corda. Partir sozinho para cima do touro é a atitude menos inteligente, ou mais estúpida, neste caso. Convém levar um “amigo” connosco, coxo de preferência, porque assim as nossas hipóteses de sobrevivência aumentam em 50%.

O touro possui capacidades ao nível da adivinhação que são exploradas. Em relação aos guarda-chuva que são empunhados diante destes, e recolhem a preferência dos touros na hora de mandar umas cornadas, a escolha destes não é aleatória. Se investir num guarda chuva com uma cor predominantemente primária (sem padrões de riscas), é sinal que será um ano de boas colheitas. Os maridos que suspeitem de infidelidades extra-conjugais das respectivas esposas podem mostrar lençóis ao touro. Caso o touro detecte sémen, irá investir na direcção do corno.

Durante um dos intervalos, e antes que soltassem o foguete que assinala a largada do próximo do touro, fomos deambular um pouco pela rua. Fiquei curioso acerca de uma linha branca traçada no chão, que o nosso motorista de serviço naquele dia, o António, me explicou tratar-se do limite até onde o touro estava autorizado a ir (cabia à malta da corda assegurar-se que ele não a transpunha). Nas imediações dessa linha vislumbrei a “tasca do Pedro” onde encontramos, afixadas na parede, fotos em que aparecia um touro que segundo nos contaram ficou célebre por escolher exclusivamente dois tipos de alvos para as suas investidas: tascas e mulheres. Identifiquei-me com o bicho imediatamente.

Na última largada aproximamo-nos mum pouco mais do touro, mas sempre observando tudo a uma confortável distância de segurança. Como não tinha guarda-chuva, não valia a pena entrar em loucuras.

9 de Setembro de 2009

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