O amor aquece os pés

Vivi com Semyo­novna uma linda his­tó­ria de amor. Nunca mais me esqueço das pala­vras por ela pro­fe­ri­das naquele dia 23 de Outu­bro em São Peters­burgo. Está­va­mos ambos rega­la­dos a olhar para o rio Neva quando ela se vira para mim e diz, sem pes­ta­ne­jar: “És um idi­ota”. Foi naquela altura em que pen­sei: afi­nal tenho uma hipó­tese com ela!

Nor­mal­mente, Semyo­novna igno­rava a minha pre­sença por com­pleto. Numa oca­sião calhou ela de vir de coche na minha direc­ção, tendo eu de me lan­çar para a valeta de forma a não ser espe­zi­nhado pelos cava­los. Isto ilus­tra que ela não me via, de todo. Mas naquele dia 12 de Janeiro (lembro-me per­fei­ta­mente daquele dia), em São Peters­burgo, vi em Semyo­novna o pri­meiro sinal de que aquela sua maleita a nível ocu­lar se come­çava a dis­si­par. “És um idi­ota”, disse ela. E tinha toda a razão. Semyo­novna, além de não ser feia de todo, revelava-se bas­tante pers­pi­caz na altura de topar idi­o­tas.  “Nunca te per­do­a­rei por teres matado a velha, Raskolnikov”.

O epi­só­dio a que ela se refe­ria foi a um pequeno homi­cí­dio, coisa pouca, por mim come­tido na semana pas­sada. Matei uma velhota indi­gente sem dó nem pie­dade. Semyo­novna ficou revol­tada, como seria de espe­rar, pois estava à espera que eu tivesse assas­si­nado bru­tal­mente dois indi­ví­duos a quem ela devia imenso dinheiro. Mas não. Fui assas­si­nar uma velha que não lhe tinha come­tido nenhum acto par­ti­cu­lar­mente desa­gra­dá­vel. Tinha sido um homi­cí­dio mal-direccionado e que não pro­vava o lindo e belo amor que eu dizia nutrir por ela, no enten­der de Semyonovna.

Mas as coi­sas mudam. Naquela noite, sucum­bindo ao meu charme e a 10 shots de absinto com uma pitada de rohyp­nol, Semyo­novna aca­ba­ria por par­ti­lhar o leito comigo. Naquela noite ador­me­ce­mos abra­ça­dos um ao outro. O amor é isto. O amor aquece os pés.

O rapto de Ole­gá­rio
Amor sem fim e sem chulé

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