O elefante de peluche

Há 20 minutos que Anacleto não dizia nada, pois não lhe era permitido. Nem ele nem mais ninguém, com excepção de Simone. Naquela casa, quando alguém desejava tomar a palavra, erguia o braço de forma a requisitar o elefante de peluche. Só a pessoa em posse do dito paquiderme poderia falar. Naquele dia, Simone estava de trombas, tal como o elefante. Num acto de rebeldia adolescente, recusava-se a transmitir o peluche aos restantes familiares, privando-os do direito à oratória. À mesa, as pessoas limitavam-se a assistir à diatribe de Simone, cujo discurso pleno em alarvidades e referências ao tópico do coleccionismo filatélico a todos causava pavor, chegando inclusivé a arreliar. Anacleto, apercebendo-se do ridículo de toda aquela situação, fez o que qualquer pessoa sensata faria: atirou comida a Simone. Infelizmente, essa acção não demoveu Simone da sua atitude impertinente. Ocorreu-lhe então um outro subterfúgio. Lembrou-se de propor um brinde. Tocou no copo repetidamente com o talher, assinalando a intenção de efectuar um discurso enquanto empunhava um copo contendo uma bebida espirituosa. O brinde possuía prioridade sobre o elefante, pelo que conseguiu desta forma furar a muralha de silêncio. Encheu o peito do ar e preparou-se para falar. Nunca mais me esqueço do que ele disse a seguir: “Finalmente! Simone, passas-me o sal? Se faz favor.”

14 de Fevereiro de 2012

One response to O elefante de peluche

  1. Sorte da Simone não estar casada com o Paco Bandeira! 🙂

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