O elefante de peluche

Há 20 minu­tos que Ana­cleto não dizia nada, pois não lhe era per­mi­tido. Nem ele nem mais nin­guém, com excep­ção de Simone. Naquela casa, quando alguém dese­java tomar a pala­vra, erguia o braço de forma a requi­si­tar o ele­fante de pelu­che. Só a pes­soa em posse do dito paqui­derme pode­ria falar. Naquele dia, Simone estava de trom­bas, tal como o ele­fante. Num acto de rebel­dia ado­les­cente, recusava-se a trans­mi­tir o pelu­che aos res­tan­tes fami­li­a­res, privando-os do direito à ora­tó­ria. À mesa, as pes­soas limitavam-se a assis­tir à dia­tribe de Simone, cujo dis­curso pleno em alar­vi­da­des e refe­rên­cias ao tópico do colec­ci­o­nismo fila­té­lico a todos cau­sava pavor, che­gando inclu­sivé a arre­liar. Ana­cleto, apercebendo-se do ridí­culo de toda aquela situ­a­ção, fez o que qual­quer pes­soa sen­sata faria: ati­rou comida a Simone. Infe­liz­mente, essa acção não demo­veu Simone da sua ati­tude imper­ti­nente. Ocorreu-lhe então um outro sub­ter­fú­gio. Lembrou-se de pro­por um brinde. Tocou no copo repe­ti­da­mente com o talher, assi­na­lando a inten­ção de efec­tuar um dis­curso enquanto empu­nhava um copo con­tendo uma bebida espi­ri­tu­osa. O brinde pos­suía pri­o­ri­dade sobre o ele­fante, pelo que con­se­guiu desta forma furar a mura­lha de silên­cio. Encheu o peito do ar e preparou-se para falar. Nunca mais me esqueço do que ele disse a seguir: “Final­mente! Simone, passas-me o sal? Se faz favor.”

O ban­di­tismo
Adeus, 2011

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1 Comentário

  • Textículos

    Sorte da Simone não estar casada com o Paco Ban­deira! :)

    02/14/12 – 11:21

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