O kindle surpresa

Ora vamos lá a isto. Na última ite­ra­ção do seu dis­po­si­tivo Kin­dle, voca­ci­o­nado para a lei­tura de livros em for­mato digi­tal, a Ama­zon deci­diu apetrechá-lo com novas fun­ci­o­na­li­da­des. Uma delas, a popu­lar high­lights, é bas­tante desa­gra­dá­vel, por sinal.

Estava eu refas­te­lado a folhear (não como quem folheia, mas como quem pres­si­ona um botão) o livro (e-book) “The Modern Mind: An Intel­lec­tual His­tory of the 20th Cen­tury”, adqui­rido na loja online, quando me deparo com uma pas­sa­gem pre­vi­a­mente subli­nhada. Alto aí, não fui eu que subli­nhei isto, pen­sei (enquanto pen­sava tam­bém em for­mas de acres­cen­tar mais parên­te­sis aos meus tex­tos). Por baixo da pas­sa­gem des­ta­cada surge um número assi­na­lando a quan­ti­dade de pes­soas que achou por bem subli­nhar aquela parte. Pon­de­rei, pon­de­rei e decidi indignar-me. Uma pes­soa com­pra um livro em for­mato digi­tal, na ama­zon, con­ven­cido que vem ima­cu­lado, novi­nho em folha, e quando dá por si afi­nal dito livro já vem ris­cado. Fui logo recla­mar. Andar a ven­der livros em segunda mão, anunciando-os como novos? Não se faz.

Isto até pode­ria pas­sar incó­lume, não fosse outra outra falha grave que o Kin­dle apre­senta. Os livros tra­di­ci­o­nais, ou seja, aque­les que, imagine-se só, são com­pos­tos por folhas de papel, pos­suem uma capa que per­mite que outra pes­soa iden­ti­fi­que facil­mente aquilo que esta­mos a ler. A não ser que a publi­ca­ção em ques­tão seja a Gina, esse conhe­ci­mento pode ser uti­li­zado como pre­texto para meter con­versa, no con­texto do engate: “Olá! Des­culpa, não pude dei­xar de repa­rar que estás a ler o Anna Kare­nina. Já agora, sabias que ela bate a bota no final?”. O Kin­dle, como não pos­sui isso, difi­culta a tarefa, retraindo poten­ci­ais pre­ten­den­tes de efec­tu­a­rem uma abor­da­gem ao leitor(a). Eu pró­prio tenho sen­tido isso na pele. Antes de pos­suir o kin­dle, enquanto lia em espa­ços públi­cos era abor­dado em média por menos(-) 8 mulhe­res por dia, enquanto que actu­al­mente sou abor­dado por menos(-) 15.

Jeff Bezos, se me estás a ouvir, sugiro que col­ma­tes esta lacuna lan­çando um Kin­dle com um segundo ecrã, posi­ci­o­nado na parte tra­seira, que mos­tre a capa do livro que está a ser lido no momento. Quem lê a Gina é que se calhar não vai achar muita piada.

Um caso bicudo
É o que dá sair de casa sem cal­ças

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2 Comentários

  • Dragonball

    Se o que te pre­o­cupa é a soci­a­li­za­ção com mulhe­res, então o kin­dle é muito melhor que um livro. Com um livro tra­di­ci­o­nal elas podem pon­de­rar se devem ou não falar con­tigo, tendo em conta as tuas pre­fe­rên­cias bibli­o­grá­fi­cas. Com o kin­dle, elas obri­ga­to­ri­a­mente terão que falar con­tigo para saber que livro estás a ler.

    12/09/11 – 0:10

  • José Durães

    Sábias pala­vras, como de costume.

    12/09/11 – 0:53

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