O Leitor

Este texto irá tentar passar despercebido pela cascata temporal de notificação de impulsos.
Flui apressadamente, tentando não ser notado.
Embora despido de emoções, quando ele é lido e assimilado revela as cruéis intenções do seu leitor.
Um sentimento de culpa invade o seu corpo. O texto arca com as culpas, é a sua função.
O desconforto é aliviado queimando-o até se reduzir a cinzas.
A combustão é célere. No entanto, à medida que se desvanecem as derradeiras labaredas, um sorriso perverso preenche já por completo a face do leitor.

Acordo.

Lá fora, centenas de pessoas interagem, absortas numa amena cavaqueira onde interacções sociais são lubrificadas com álcool.
Ainda não acordei do torpor do recém-despertar e a cefaleia vai-me dilacerando aos poucos.
Sinto que a qualquer momento os vultos poderão arrombar a porta da minha casa, emergindo em uníssono: “Porque nos olhas assim em pânico, não querias tu vir até nós?”

4 de Junho de 2010

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