O rapto de Olegário

Aquilino gostava da palavra corrupção. E da palavra banditismo. E também de estupefacientes. Mas só das palavras, não das acções as permeiam e que a elas estão inevitavelmente associadas. Aquilino era um fora-da-lei estritamente a nível literário. A polícia lexical há muito que andava no seu encalço. Os 245 crimes pelos quais estava indiciado tornavam-no sem dúvida no homem mais procurado da região de Melgaço.

Zislavtovic Costa, um célebre autor de romances de cordel luso-esloveno, recebeu um dia uma encomenda na sua caixa de correio. Tratava-se de uma épica obra da autoria de Aquilino em que este engendrava uma elaborada narrativa sobre o rapto de Olegário, o personagem fictício habitual protagonista dos livros de Zislavtovic. Na obra Olegário desaparecia sem deixar rasto, levado por um conjunto de homens encapuçados. Perante o desaparecimento do seu personagem predilecto, Zislavtovic ficou desamparado. Sem ele, não podia continuar a escrever. Imediatamente deu conta do rapto às autoridades competentes, que não tardaram em lançar um mandato internacional de busca por Aquilino na secção “policiário” do jornal “clube de detectives”.

As autoridades iniciaram imediatamente as diligências necessárias para apanhar Aquilino. O seu melhor investigador, Otelo, começou imediatamente a dactilografar uma narrativa em que se descrevia a investigação, passo-por-passo. Por causa de uma artrite, os dedos de Aquilino tendiam a emperrar. A sua velocidade de digitação andava nas 100 palavras por minuto, bem abaixo das 160 conseguidas por Otelo, que não tardou em apanhar Aquilino no capítulo 8, cuja acção se situava na Festa das Cruzes, em Barcelos, um cenário pleno em farturas e carrosséis. Tudo culminou com uma desenfreada perseguição nos carrinhos de choque, em que Aquilino soçobrou em virtude de ter ficado sem fichas e o seu carrinho se ter imobilizado. Otelo algemou Aquilino e mandou-o para a choldra.

Quanto à personagem desaparecida de Zislavtovic, Olegário, foi encontrada. Esteve aquele tempo todo escondido numa obra de António Lobo Antunes. Conheceu lá uma moça e voltou enamorado. Uma maravilha. Quanto a Aquilino, acabaria por levar a melhor. Zislavtovic não reparou que, Aquilino, na obra que lhe tinha enviado, relatou no posfácio a forma como iria fugir da prisão. Evadiu-se facilmente, escapando mais uma vez das malhas da justiça. Ainda hoje anda a monte, iludindo polícia, críticos literários e acumulando um sem fim de devoluções em atraso em várias bibliotecas por aí.

9 de Julho de 2012

One response to O rapto de Olegário

  1. E eu a pensar que o Olegário tinha ido para o Brasil…

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