Os fantasmas ainda existem e escolheram assombrar os telemóveis

 Os fantasmas ainda existem e escolheram assombrar os telemóveis

Hoje recebi um tele­fo­nema pecu­liar. No visor do tele­mó­vel apa­re­ceu que se tra­tava de uma cha­mada anó­nima e atendi, pronto a pro­ce­der como habi­tu­al­mente nes­tas situ­a­ções: “Identifica-te, cobarde! Identifica-te se és homem! Mos­tra que os tens no sítio! Isto assu­mindo que és homem, desde já as minhas des­cul­pas se a minha assun­ção quanto ao teu sexo não for a cor­recta.” Ao invés, resolvi res­pon­der com um invul­gar “Estou?”. O silên­cio prolongou-se do outro lado. “Estou? Quem fala? Sim?”. Sem res­posta. Des­li­guei, e foi então que me aper­cebi que tinha aca­bado de pre­gar uma par­tida a mim próprio.

O que suce­deu foi muito sim­ples. Ao que parece o meu tele­mó­vel pos­sui uma fun­ção deno­mi­nada “cha­mada falsa”. Esta fun­ção, que eu des­co­nhe­cia na altura e à qual acedi invo­lun­ta­ri­a­mente, é acti­vada quando uma deter­mi­nada tecla é pres­si­o­nada, mesmo que o tele­mó­vel se encon­tre blo­que­ado. E o que sucede então? Alguns ins­tan­tes após a inter­ven­ção por parte do uti­li­za­dor, é invo­cado um espí­rito que se apo­dera do tele­mó­vel, fazendo-o tocar, como se de uma espon­tâ­nea cha­mada tele­fó­nica se tra­tasse. “Peço imensa des­culpa, tenho que aten­der esta cha­mada, é urgente. Fala­mos nou­tra altura, está bom?”. Com­pa­nhia incó­moda evi­tada. E tam­bém pode­mos simu­lar cha­ma­das até dar com um pau, assim em cata­dupa, para fin­gir que somos populares.

Foi colo­cada uma camada adi­ci­o­nal de sofis­ti­ca­ção nesta fun­ci­o­na­li­dade. É pos­sí­vel gra­var um excerto áudio que ire­mos escu­tar após aten­der­mos a cha­mada. Desta forma pode­re­mos dar voz ao nosso inter­lo­cu­tor ima­gi­ná­rio, e, alem de tor­nar esta fic­ção mais cre­dí­vel ajuda a evi­tar que uma pes­soa se sinta com­ple­ta­mente insana. Se bem que para quem uti­lize uma fun­ci­o­na­li­dade des­tas tal­vez já seja tarde de mais. O grau IX de mes­tre do mal será atri­buído àque­las pes­soas resol­vam dar-se ao tra­ba­lho de engen­drar um diá­logo com pau­sas tem­po­ri­za­das. Eu cá pre­fi­ria ele­var isto a outro pata­mar gravando-me a mim pró­prio e colo­cando o tele­mó­vel em alta voz para ten­tar ten­tando que as pes­soas acre­di­tem que a comu­ni­ca­ção entre mun­dos para­le­los (via tele­mó­vel) é possível.

Isto é uma encru­zi­lhada, boy
Pseudo-crítica de cinema: Ava­tar

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