Amor sem fim e sem chulé

Aquilino não gostava de ofender as pessoas pela internet. Através do computador, não conseguia receber valentes pares de estalos na cara. Os estalos por ele recepcionados e a veemência com que eram desferidos permitiam-lhe avaliar o impacto das suas provocações. Impossibilitado de escutar a frequência da reverberação das suas bochechas, sem conseguir ver o ódio flamejante no olhar do seu interlocutor, Aquilino sentia-se perdido. Através do chat, os smileys que recebia sinalizando desagrado eram todos iguais. Uma massa indistina de círculos amarelos com toscos traços que não conseguiam captar todas as nuances da paleta de expressões do rosto humano. Aquilino ansiava por uma ligação emocional real. Queria ser ele o objecto de ódio e de desprezo e não a sua alcunha no IRC, joel_lisboa_19, o ponto onde todo o azedume confluísse. De repente apaixonou-se e passou a ser um homem bom. Aquela máquina de cortar relva por quem Aquilino se enamorou ensinou-o a amar. Passados uns tempos, Aquilino ganhou tino e trocou-a por uma voluptuosa mulher russa chamada Iegvenia. A sua relação de Iegvenia era muito mais carnal. Aquilino vivia num apartamento, sem quintal ou qualquer outro tipo de espaço verde, pelo que aquele envolvimento com a máquina de cortar relva estava destinado ao fracasso desde o início. Além disso, a máquina era muito imatura emocionalmente. Iegvenia ria-se das piadas de Aquilino. Pela primeira vez na vida, este sentia-se feliz.

11 de Junho de 2012  Publicar um comentário

Problemas que podem arreliar certas pessoas a partir de 2050

Vou-vos então maçar com problemas que apoquentam o dia-a-dia de Glória. Glória, na realidade, não existe, já que ninguém tem paciência para escutar os problemas de terceiros, a não ser que se tratem de problemas que aflijam personagens ficcionais.

Este espécime do sexo masculino tem problemas ao nível do relacionamento inter-pessoal. É bem-parecida, eloquente, fala 6 línguas, possui um odor corporal agradável, mas não tem amigos. Logicamente, isto deve-se ao facto de ela possuir uma condição médica, a nível da cabeça (para ser mais específico), que a impossibilita de lidar com tudo o que seja tecnologia. Glória não consegue manusear telemóveis, computadores, o controlo remoto da televisão, nem sequer um microondas. Como a esmagadora maioria das pessoas da sua geração opta por se relacionar exclusivamente através da internet e do telemóvel, o eclodir de toda uma panóplia de potenciais amizades fica desta forma vedada a Glória, a info-excluída.

Esta uma situação que me deixa particularmente triste, ainda para mais tratando-se de um problema que apoquenta uma personagem ficcional. É que, convenhamos, as personagens ficcionais não possuem sequer um endereço de e-mail que possamos utilizar para enviar umas palavras de conforto.

18 de Abril de 2012  2 Comentários

O banditismo

Seria para uns do foro criminal, o seu problema, ou para outros uma problemática de carácter geométrico.

Uma paixão desmesurada por um tema, o da economia paralela, assunto ecléctico.

O seu interesse era puramente teórico, não maquinava nenhuma tropelia.

A roubar algo seria um carro alegórico, num golpe a cometer em plena luz do dia.

Um dia levou por engano um guarda-chuva que não lhe pertencia.

Sentiu-se incomodado durante um ano e nunca mais sonhou com nenhuma patifaria.

 

16 de Fevereiro de 2012  3 Comentários

O elefante de peluche

Há 20 minutos que Anacleto não dizia nada, pois não lhe era permitido. Nem ele nem mais ninguém, com excepção de Simone. Naquela casa, quando alguém desejava tomar a palavra, erguia o braço de forma a requisitar o elefante de peluche. Só a pessoa em posse do dito paquiderme poderia falar. Naquele dia, Simone estava de trombas, tal como o elefante. Num acto de rebeldia adolescente, recusava-se a transmitir o peluche aos restantes familiares, privando-os do direito à oratória. À mesa, as pessoas limitavam-se a assistir à diatribe de Simone, cujo discurso pleno em alarvidades e referências ao tópico do coleccionismo filatélico a todos causava pavor, chegando inclusivé a arreliar. Anacleto, apercebendo-se do ridículo de toda aquela situação, fez o que qualquer pessoa sensata faria: atirou comida a Simone. Infelizmente, essa acção não demoveu Simone da sua atitude impertinente. Ocorreu-lhe então um outro subterfúgio. Lembrou-se de propor um brinde. Tocou no copo repetidamente com o talher, assinalando a intenção de efectuar um discurso enquanto empunhava um copo contendo uma bebida espirituosa. O brinde possuía prioridade sobre o elefante, pelo que conseguiu desta forma furar a muralha de silêncio. Encheu o peito do ar e preparou-se para falar. Nunca mais me esqueço do que ele disse a seguir: “Finalmente! Simone, passas-me o sal? Se faz favor.”

14 de Fevereiro de 2012  1 Comentário

Adeus, 2011

O ano de 2012 chegou, com pompa e circunstância. Parece-me não existir altura mais oportuna do que esta para fazer uma retrospectiva do ano de 1977. Permitam-me só fazer a seguinte observação, lateral a este assunto: a pompa e a circunstância andam muitas vezes juntas. Onde haja uma frase onde esteja presente a pompa, normalmente está também a circunstância. Correm até rumores que as duas já foram vistas de mão dada. Mas não me pronuncio mais relativamente a isto, até porque não tenho por hábito intrometer-me na vida privada das palavras, a não ser que sejam nomes próprios, como Rita ou João.

Retomando o fio à meada, já se sabe que fazer retrospectivas com menos do que 20 anos de distanciamento é mau. Desde já, porque os acontecimentos que se registam em cada ano têm repercussões que só se fazem sentir a longo prazo. Por exemplo, analisar à lupa o ano de 1987 em 1988 não iria revelar nada de transcendente. O mesmo exercício, feito agora, teria produzido a seguinte conclusão: o mundo era um local bem mais feliz em 1987, pois nessa altura ninguém conhecia os Black Eyed Peas.

1977 pode parecer um ano longínquo, envolto num manto de neblina, mas foi também o ano em que foi fundada a Apple. A forma como tocamos em coisas nunca mais foi a mesma. 2011 poderá parecer um ano que não irá deixar saudades, sobretudo para quem viu televisão, mas nada nos diz que algo de revolucionário que irá mudar a forma como vemos o mundo e como o mundo nos vê a nós não foi criado neste ano. Em 2040 a gente fala.

2 de Janeiro de 2012  Publicar um comentário

Enquanto estamos à espera

Estou neste momento numa fila de espera. Onde me leva esta fila? Não é isso o mais importante. Há uns anos, um professor britânico contou-me algo que eu na altura achei curioso. Em Inglaterra, não é insólito ver senhoras idosas dirigirem-se a filas de espera em locais públicos, movidas por um único propósito: o de meter conversa com quem lá aguarda. A solidão é tramada. Que é como quem diz, estamos todos juntos nisto, vamos todos para o mesmo lado, por isso façamos então companhia uns aos outros entretanto.

A vida é uma incessante espera. Há quem esteja à espera que lhe digam alguma coisa. Há quem diga: “podes esperar sentado”. Há quem esteja à espera que a outra parte se decida. Há quem se decida, mas quando finalmente se decide já é tarde demais, já não há ninguém à espera. Quando tomamos a iniciativa de marcar algo, há que aguardar confirmação. E, no dia em que se marcou, há que esperar que toda a gente que confirmou chegue. E há quem espere, e acredite, que algo de surpreendente ainda irá acontecer, que a vida tem de ser mais do que isto isto.

B Fachada interpreta o tema “estar à espera ou procurar”. O que suscita a questão: qual será a melhor abordagem, estar à espera ou procurar? Podemos procurar o tempo todo que quisermos, mas se não soubermos o que que procuramos, não adianta de nada. E aquilo que procuramos não é, muitas das vezes, aquilo que realmente queremos ou que verdadeiramente nos faz falta. Há que saber esperar. Estar à espera não é uma atitude passiva, não é deixar andar. Estar à espera é estar desatento, mas preparado para a eventualidade. É finalmente encontrar e pensar que, afinal de contas, nada nos preparou para aquele momento. E que ainda bem que assim foi. Não devemos procurar. Quando se está à espera e se encontra, é duplamente recompensador. Encontrar quando não se está à procura sabe muito bem. Melhor, só mesmo encontrar quando nem sequer se está à espera.

15 de Dezembro de 2011  3 Comentários

Um caso bicudo

A comunicação é um processo complicado, sobretudo quando envolve pessoas. Como se não bastasse, acresce a isso o facto de as pessoas nem sempre saberem muito bem como se hão-de dirigir umas às outras. Em certos contextos, tratar o nosso interlocutor por digníssimo magnânimo senhor doutor é uma forma de tratamento que poderá pecar por insuficiente, constituindo uma afronta ao visado.

Percebe-se a importância do título: ninguém quer fazer negócios com o Anacleto, mas se for com o engenheiro Anacleto a história já é outra. O Anacleto cheira mal dos pés. No engenheiro Anacleto, por seu turno, há um odor que é emanado pela sua planta do pé e que é captado pelo nosso nariz que peca por ser demasiado sensível.

Às vezes ligamos para um escritório na expectativa de poder falar com o senhor fulano, e riposta uma secretária do outro lado, apontando-nos na direcção certa: “quer falar com o doutor fulano?”. Cá para mim, é esta a principal tarefa que é delegada na secretária: informar-nos como devemos dirigir-nos à excelentíssima personalidade em causa, não vá uma pessoa passar por atrevida e abusadora da confiança alheia.

Além do mais, se for o próprio a apresentar-se como iluminado doutorado honoris-causa sícrano, parece mal, mas se for uma terceira pessoa a efectuar a apresentação, já é apropriado. É por estas e por outras que me faço sempre acompanhar pelo Aníbal, que me apresenta sempre a outros indivíduos como “este senhor mais credível do que aquilo que aparenta ser na realidade chamado José”.

Há um outro aspecto que gostaria de introduzir neste texto. Vou então introduzi-lo. É o seguinte: há pessoas que conseguem desdobrar as suas opiniões de forma curiosa, conseguindo a proeza de falar seja a título individual ou colectivo e até enquanto membro de um determinado cargo. Podemos discordar das afirmações de um amigo, confrontá-lo com as mesmas e obter como resposta “Sim, mas eu não disse isso a título pessoal. Falei enquanto representante do sindicato das pescas. Até porque, pessoalmente, discordo por completo dessas afirmações que eu próprio proferi nessa condição. Já enquanto praticante de curling, não tenho a nada a dizer sobre essa matéria”. Tanto isto, como o curling, dão que pensar.

Pessoalmente, prometo nunca enveredar por este tipo de malabarismos intelectualmente desonestos. Já enquanto autor deste blog, não garanto nada. E, por último, e em nome dos meus leitores, declaro que desta vez um post conseguiu ser quase interessante.

15 de Dezembro de 2011  Publicar um comentário

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