É o que dá sair de casa sem calças

12/05/11

tumblr lfl8prctru1qzezj5o1 500 É o que dá sair de casa sem calças

Mais uma vez, Aqui­lino tinha saído de casa sem cal­ças. A situ­a­ção não era iné­dita e, além de não ser iné­dita, era recor­rente. Aqui­lino era bas­tante dis­traído e andava cons­tan­te­mente com a cabeça na lua, espe­ci­al­mente desde que o agru­pa­mento musi­cal “os luná­ti­cos” lan­çou o “estou na lua”, na década de 90. Só na semana pas­sada, as cal­ças tinham ficado em casa por duas oca­siões, com a agra­vante de Aqui­lino só se ter aper­ce­bido da situ­a­ção quando che­gou ao trabalho.

Escu­sado será de dizer, todo este imbró­glio fazia com que fosse Aqui­lino fosse alvo de cha­cota por parte dos seus cole­gas de tra­ba­lho. Nes­sas oca­siões, Aqui­lino ficava numa posi­ção vul­ne­rá­vel, de boxers do bat­man à mos­tra, enquanto os seus cole­gas se riam que nem uns alar­ves daquela figura cari­cata. Quase toda a malta do escri­tó­rio, patrão incluído, ido­la­trava as per­so­na­gens das ban­das dese­nha­das da Mar­vel e abo­mi­nava as res­tan­tes, pelo que reser­vava reac­ções de des­dém ao invés de estron­do­sas ova­ções e pro­pos­tas de cariz sexual a pes­soas que expu­ses­sem publi­ca­mente per­so­na­gens da DC Comics.

Lá na firma, o Aqui­lino tem o tra­di­ci­o­nal emprego de escri­tó­rio: tra­ba­lha num cubí­culo. Como é que ele che­gou até esta posi­ção? Bem, para expli­car isto terei de retro­ce­der no tempo. Bem, para expli­car isto terei de retro­ce­der no tempo. Peço des­culpa. Enganei-me, tenho de retro­ce­der ainda mais. Agora sim. No mês pas­sado, o depar­ta­mento res­pon­sá­vel por iden­ti­fi­car nichos de mer­cado fez uma des­co­berta sur­pre­en­dente. Esta­vam entre­ti­dos a fare­jar nichos de mer­cado quando iden­ti­fi­ca­ram uma área por explorar.

O mérito desta des­co­berta vai para Sebas­tião, o tra­ba­lha­dor mais com­pe­tente da empresa. Sebas­tião, sendo uma cri­a­tura de qua­tro patas, mais pre­ci­sa­mente um cão de raça fox ter­rier, dili­gen­te­mente ladrou para o resto da equipa uma série de ori­en­ta­ções. De seguida, alçou a pata e uri­nou no mapa a área geo­grá­fica onde estava loca­li­zado o público alvo da empresa. Neste caso, enchar­cou por inteiro um mapa-mundo. Estava visto que a empresa iria ter de abdi­car das suas ambi­ções comer­ci­ais em Vénus e pas­sar a concentrar-se no pla­neta Terra. No final desta tarefa, o resto da equipa foi recom­pen­sado com um osso cada um e a Sebas­tião foi atri­buído um salá­rio chorudo.

Estava visto que era no pla­neta terra que esta­vam as opor­tu­ni­da­des. A empresa era vista como uma ganan­ci­osa cor­po­ra­ção maqui­a­vé­lica que pegava nos direi­tos dos tra­ba­lha­do­res, dava-lhes um cafuné, e de seguida dei­tava esses mes­mos direi­tos numa fogueira onde cre­pi­ta­vam laba­re­das enor­mes. Nem toda a gente par­ti­lhava desta opi­nião. As pes­soas que nunca tinham ouvido falar da empresa não acha­vam isso, mas ainda assim havia cla­ra­mente que fazer algo para melho­rar a ima­gem da empresa. Nor­mal­mente os pro­ble­mas da empresa eram resol­vi­dos envi­ando resí­duos tóxi­cos para paí­ses de ter­ceiro mundo. Con­tudo, neste caso era neces­sá­rio adop­tar uma solu­ção mais enge­nhosa, até por­que já não sobra­vam mais paí­ses do ter­ceiro mundo para recep­ci­o­nar entu­lho da empresa. Que fazer então? Era altura de fazer uma apre­sen­ta­ção power­point sobre o problema.

Foi então ela­bo­rada uma apre­sen­ta­ção power­point des­cre­vendo o pro­blema de cre­di­bi­li­dade da empresa. De seguida, foi feita uma apre­sen­ta­ção à admi­nis­tra­ção. Recolheram-se pare­ce­res de 7 admi­nis­tra­do­res e feed­back de outros 3. Com essas opi­niões, o power­point foi rec­ti­fi­cado, alte­rando os grá­fi­cos de bar­ras para grá­fi­cos cir­cu­la­res, para gáu­dio de todos. Após essa modi­fi­ca­ção, o power­point ficou bem mais inci­sivo. O pre­si­dente da empresa, apercebendo-se final­mente da gra­vi­dade do pro­blema que tinha em mãos, deci­diu ence­tar uma lide­rança firme e deci­dida, e não per­deu tempo: dele­gou, de ime­di­ato, a tarefa de encon­trar uma solu­ção nou­tra pessoa.

Como Sebas­tião tinha sido preso entre­tanto devido à con­tra­fac­ção de comida para gato, o pre­si­dente son­dou a 2ª pes­soa mais com­pe­tente que conhe­cia. A esco­lha recaiu em Eze­quiel, um esta­feta que cos­tu­mava entre­gar as piz­zas no escri­tó­rio. Eze­quiel, tendo visto Aqui­lino no outro dia a enver­gar os boxers do bat­man, ganhou uma empa­tia grande para com ele, pois gos­tava bas­tante do Chris­tian Bale, tendo alguns pos­ters dele (do bat­man) em casa, na sala, e tam­bém outros dele (do Chris­tian Bale) no quarto.

Ocor­reu a Eze­quiel uma ideia. A empresa tinha um pro­duto revo­lu­ci­o­ná­rio que os cli­en­tes tinham difi­cul­dade em uti­li­zar, devido à sua extrema com­ple­xi­dade, dado que nem os seus pró­prios inven­to­res sabiam muito bem para que ser­via. E que tal se, jun­ta­mente com o pro­duto, fosse empa­co­tado e expe­dido um assis­tente pes­soal? O cli­ente, ao recep­ci­o­nar e abrir a enco­menda, depara-se então com uma inter­ven­ção per­so­na­li­zada. Como que impul­si­o­nado por uma mola, o assis­tente salta da caixa, ainda a cus­pir esfe­ro­vite, e de bra­ços aber­tos entu­si­as­ti­ca­mente con­gra­tula o cli­ente pela aqui­si­ção do pro­duto, ficando dis­po­ní­vel dis­po­ní­vel para aju­dar na con­fi­gu­ra­ção do mesmo bem como para solu­ci­o­nar todas as dúvi­das. Par­tindo do prin­cí­pio que no final do período de ins­tru­ção o assis­tente não é feito refém afim de lhe serem reti­ra­dos os orgãos, a ideia tinha per­nas para andar. Aqui­lino seria então o eleito para levar a cabo esta tarefa.

A ideia foi exposta ao patrão, que bateu pal­mas entu­si­as­ti­ca­mente e de seguida disse nem pen­sar, a ideia não serve. Era sinal que tinha ado­rado a suges­tão, dado que o patrão pade­cia de um sín­drome que pro­vo­cava uma incon­gruên­cia entre a sua comu­ni­ca­ção ver­bal e ges­tual, sendo que  a ges­tual pre­va­le­cia nes­ses casos. A ideia avançou.

Actu­al­mente, Aqui­lino viaja por todo o mundo. Paris, Lon­dres, Tóquio, Sin­ga­pura, Alen­quer. As via­gens são pas­sa­das den­tro de uma caixa, aos sola­van­cos, em com­par­ti­men­tos de carga dos mais vari­a­dos trans­por­tes aéreos, marí­ti­mos e eques­tres. No entanto, a par­tir de dois ori­fí­cios da caixa, con­se­gue vis­lum­brar silhu­e­tas, e essa vista pri­ve­li­gi­ada nin­guém lhe tira. A inte­rac­ção com os cli­en­tes é a parte mais ali­ci­ante e todos são bas­tante afá­veis. Uma altura, Aqui­lino foi bale­ado 6 vezes por um cli­ente que não estava a con­tar que um vulto sal­tasse da caixa e se assus­tou. No entanto, o dito cli­ente pediu-lhe des­culpa na hora, enquanto a ambu­lân­cia che­gava, mal se aper­ce­beu que tinha sido um mal-entendido. Mais tarde, depois Aqui­lino ter pas­sado 8 sema­nas no hos­pi­tal em con­va­les­cença, ele e o cli­ente até se con­se­gui­ram rir de toda aquela situ­a­ção. Há sem­pre peri­pé­cias engra­ça­das para contar.

A ideia tinha resul­tado em pleno: A nível de rela­ções públi­cas, conferia-se um rosto humano a uma ganan­ci­osa cor­po­ra­ção maqui­a­vé­lica conhe­cida por pegar nos direi­tos dos seus tra­ba­lha­do­res, afagá-los sua­ve­mente, e de seguida pegar nes­ses mes­mos direi­tos e deitar-lhes ácido cor­ro­sivo por cima. Em ter­mos eco­nó­mi­cos, poupava-se e muito na impres­são de manu­ais em papel. O ambi­ente agradece.

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A propósito do tempo que passa

11/28/11

 A propósito do tempo que passa

Todos os dias, ela abria o jor­nal e folhe­ava a sec­ção da necro­lo­gia. O facto de o seu nome não cons­tar lá tranquilizava-a.

Ela gos­tava de incor­po­rar ritu­ais e ges­tos ensai­a­dos que, pela repe­ti­ção, pas­sa­vam a ser fami­li­a­res, ate­nu­ando a estra­nheza que ela sen­tia em habi­tar o seu pró­prio corpo. Era uma cri­a­tura dada a lúgu­bres incli­na­ções. Quando mor­resse, que­ria que na már­more fosse ins­crito um epi­tá­fio catita. Ela sor­ria e pro­fe­ria pala­vras como catita quando falava de assun­tos sérios, como a morte, para que não dei­xas­sem de ser sérios.

Às vezes dei­xava de sen­tir o chão, como se tudo esti­vesse a desa­bar e o mundo a esti­vesse pres­tes a engo­lir. Ou como se ela esti­vesse a levi­tar, pai­rando lá no alto, num lugar onde o olhar não chega e que só em qui­me­ras se alcança.

Isto a pro­pó­sito do tempo que passa.

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O maior erro de Einstein

11/23/11

Ape­sar da crise, quando che­guei à bifur­ca­ção decidi virar à esquerda. Na rea­li­dade, a crise pouco ou nada teve a ver com esta minha opção. O que sucede é que um decreto-lei, apro­vado na assem­bleia da repú­blica e pro­mul­gado esta semana obriga-me a come­çar, dora­vante, todos os post por esta expressão.

Aten­te­mos àquilo que é difun­dido na tele­vi­são. Nos tele­jor­nais, todas as notí­cias estão subor­di­na­das ao mesmo tema uni­fi­ca­dor. É pos­sí­vel obser­var indi­ví­duos que estão tolhi­dos pela crise, que falam sobre a crise, que tomam opções con­di­ci­o­na­dos pela crise, que encon­tram solu­ções ape­sar da crise e até pes­soas que acham que a pró­pria crise está em crise.

Isto é trans­ver­sal a todas as espé­cies. Por exem­plo, nou­tro dia uma cria de panda afastou-se dos seus pro­ge­ni­to­res e perdeu-se, con­se­guindo reencontrá-los final­mente após ter deam­bu­lado sozi­nho durante durante 24 horas. O feito desta cria é ainda mais admi­rá­vel se con­si­de­rar­mos a con­jun­tura eco­nó­mica em que nos encontramos.

Estou a ser injusto na medida em que os tele­jor­nais não trans­mi­tem exclu­si­va­mente notí­cias sobre a crise. No final, há sem­pre um seg­mento infor­ma­tivo dedi­cado à mete­re­o­lo­gia. Se bem que mesmo aí, a crise é evi­dente devido à ausên­cia de don­ze­las roli­ças que outrora mar­ca­vam pre­sença neste espaço, sem­pre empe­nha­das em elucidar-nos sobre o estado do tempo em por­tu­gal con­ti­nen­tal e nas ilhas.

O maior erro de Eins­tein não foi ter acres­cen­tado uma cons­tante cos­mo­ló­gica às equa­ções rela­ti­vas à rela­ti­vi­dade geral. Na rea­li­dade, o seu maior erro foi ter-se olvi­dado de acres­cen­tar uma cons­tante C, rela­tiva à crise, cujos efei­tos são mais per­ni­ci­o­sos do que for­ças gra­ví­tica, nuclear e ató­mi­cas combinadas.

Infe­liz­mente, vou ter que fina­li­zar agora este texto agora. É a crise.

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Está o caldo entornado

11/07/11

tumblr lv4bj2jtfY1qbm6w3o1 500 Está o caldo entornado

Como a agres­si­vi­dade não se dilui em água é ine­vi­tá­vel que as pes­soas, mais certo ou mais tarde, tenham de recor­rer a outros expe­di­en­tes e a che­ga­rem a vias de facto. Há oca­siões em que duas ou mais pes­soas deci­dem resol­ver um dado dife­rendo recor­rendo à força física. Nor­mal­mente, o álcool surge como um cata­li­sa­dor des­tas desa­ven­ças, resul­tando em dis­pu­tas que envol­vem uma com­bi­na­ção mais ou menos coor­de­nada de movi­men­tos que visam des­fe­rir danos ao adver­sá­rio de forma a aleijá-lo e ensinar-lhe uma lição.

As pro­ba­bi­li­da­des de haver por­rada aumen­tam expo­nen­ci­al­mente com a pre­sença de mulhe­res nas pro­xi­mi­da­des a quem os homens envol­vi­dos na ses­são de inter­câm­bio de socos pos­sam impres­si­o­nar. Centro-me aqui exclu­si­va­mente nos con­fron­tos mas­cu­li­nos uma vez que na única luta de que tenho registo, envol­vendo mulhe­res, elas esta­vam em roupa inte­rior e o con­fronto realizou-se na lama. Não, não tes­te­mu­nhei isso pes­so­al­mente, foi num vídeo com a ima­gem muito des­fo­cada. A minha vida é bas­tante deprimente.

Mas vol­te­mos à aná­lise antro­po­ló­gica do con­fronto. Ao demons­trar que é um exí­mio luta­dor e que sabe defen­der a sua honra ripos­tando quando é pro­vo­cado com olha­res con­se­cu­ti­vos de mais de 0.6 segun­dos, o homem está a sina­li­zar às demais don­ze­las que é viril e que as con­se­gue pro­te­ger de leões, ele­fan­tes e tigres. Está a trans­mi­tir, por­tanto, que é um bom par­tido, capaz de asse­gu­rar a pro­tec­ção da mulher no neolítico.

O nível de indig­na­ção tem subido a olhos vis­tos nos últi­mos anos. Em ter­mos téc­ni­cos, as pes­soas andam mais car­ran­cu­das. Esta afir­ma­ção pode facil­mente ser sus­ten­tada atra­vés da aná­lise da evo­lu­ção no número de pes­soas que escre­vem fra­ses total­mente em maiús­cu­las. Com­pi­lando estes dados e representando-os sob a forma de grá­fi­cos de bar­ras, grá­fi­cos cir­cu­la­res e his­to­gra­mas, rapi­da­mente che­gá­mos à con­clu­são que as pes­soas andam mais cha­te­a­das agora do que há alguns anos atrás.

Ape­sar de toda esta indig­na­ção acu­mu­la­ção, actu­al­mente as pes­soas levam vidas muito ocu­pa­das e pre­en­chi­das, por causa da ubi­qui­dade da tele­vi­são e da vasta oferta a nível de canais tele­vi­si­vos. Com tal azá­fama cons­tante nem sequer sobra tempo para criar ini­mi­za­des, o que é uma pena. Não tarda nada os miú­dos só se vão saber agre­dir recor­rendo a ava­ta­res que con­tro­lam atra­vés de game­pads e tecla­dos. Pre­vejo um futuro negro para a huma­ni­dade, com a pro­li­fe­ra­ção do sín­drome do túnel carpal.

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Desculpe, sou eu o visado?

10/28/11

5128977760 e754012084 b Desculpe, sou eu o visado?

Um indi­ví­duo entra de rom­pante na sala. A indig­na­ção está-lhe indu­bi­ta­vel­mente estam­pada no rosto. Brada de ime­di­ato, numa voz caver­nosa: “Você é um palerma!”. Todos os pre­sen­tes ficam sobressaltados.

Aqui­lino resolve inqui­rir: “Des­culpe, sou eu o visado?”

Não não, estava a dirigir-me ao idi­ota que está sen­tado a seu lado.”

Mas ele é idi­ota ou palerma?”

Ambos. Tanto é idi­ota como palerma, embora com uma pre­pon­de­rân­cia supe­rior no que à idi­o­tice diz res­peito. E bas­tante obtuso, também.”

Permita-me que lhe diga, acho os insul­tos que dirige a este cava­lheiro com­ple­ta­mente des­pro­vi­dos de ori­gi­na­li­dade. Nem sequer fez refe­rên­cia aos hábi­tos de higi­ene dele, ou melhor, à total ausên­cia deles. Outras carac­te­rís­ti­cas sal­tam tam­bém à vista, tais como a sua extrema feal­dade e voz esga­ni­çada. Pode­ria igual­mente ter ridi­cu­la­ri­zado a sua absurda e pau­pér­rima colec­ção de selos.”

Bem visto. Não primo pela ori­gi­na­li­dade, de facto. Vou ter isso em conta quando, futu­ra­mente, achin­ca­lhar esse atrevido!”

Atre­vido? Calma, tam­bém não é pre­ciso ofendê-lo dessa forma. Veja lá se rec­ti­fica essa ati­tude. Mas não se pre­o­cupe. Decerto que esta besta o afec­tou, a si, com alguma vil acção que o tor­nou mere­ce­dor de ser alvo de cha­cota em público e de lhe serem des­fe­ri­das as mais rudes ofensas.”

Pois, nem cal­cula a des­fa­ça­tez do gajo. Mas Isto não fica assim, não. Eu vol­ta­rei! Adeus.”.

O indig­nado aban­dona, a sala, batendo a porta com estrondo atrás de si. De forma a aumen­tar o efeito dra­má­tico pre­sente nesta cena, já de si sur­real, um qua­dro que estava pen­du­rado na parede resol­veu atirar-se ao chão. Os res­tan­tes qua­dros, menos afoi­tos, mantiveram-se impá­vi­dos e sere­nos, per­ma­ne­cendo engan­cha­dos nos res­pec­ti­vos pre­gos. Alguns deles pro­tes­ta­ram, entre­den­tes, con­tra o ani­mismo pre­sente neste parágrafo.

Por momen­tos, todas as pes­soas pre­sen­tes na sala fica­ram sem saber o que dizer. Teu­tó­nio, o alvo dos insul­tos, assis­tiu a tudo sem bal­bu­ciar uma pala­vra, sequer. Estava estu­pe­facto. Aqui­lino vira-se então para ele, olhos nos olhos, e diz-lhe:

Bem, que desa­gra­dá­vel da parte daquele moço ter inter­rom­pido a nossa con­versa. Com isto tudo já perdi o fio à meada. Onde é que nos íamos, Teotónio?”

Mal posso acre­di­tar… Pen­sei que éra­mos ami­gos… Tu não gos­tas dos meus selos?”


A ima­gem que acom­pa­nha este post foi gen­til­mente pilhada daqui.

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Como devo olhar para ti?

10/26/11

tumblr ltl4uabuwz1qaex0wo1 500 Como devo olhar para ti?

O caso de Simone era sin­gu­lar, como o de toda a gente. Simone tinha vir­tu­des, omis­sões, e o defeito de pos­suir dema­si­a­das vir­tu­des, o que a impe­dia de tirar mais par­tido da vida. Osci­lava, inva­ri­a­vel­mente, entre e o mili­tan­tismo cívico activo e o con­for­mismo, con­so­ante esti­vesse ou não a dar algo de jeito na tele­vi­são. Apre­ci­ava rum e dubs­tep, mas em doses mode­ra­das (o dubs­tep, não o rum).

Durante a sua infân­cia, um con­junto de cir­cuns­tân­cias fize­ram Simone acre­di­tar na ideia de que era ela melhor vista de forma inter­mi­tente, querendo-se com isto dizer que a sua com­pa­nhia só era tole­rada em peque­nas doses, devi­da­mente espa­ça­das. Alguns anos vol­vi­dos, esta sua per­cep­ção iria mudar radicalmente.

Tudo foi des­po­le­tado com a lei­tura de The Pic­ture of Dorian Gray. Nas pala­vras de Oscar Wilde, “the bra­vest man among us is afraid of him­self”. Esta frase fez res­so­nân­cia em Simone. Deci­dida a conhecer-se melhor, a tes­tar os seus limi­tes e a elucidar-se acerca do rumo que real­mente dese­java impri­mir à sua vida, resol­veu embar­car numa via­gem de auto-descoberta. Natu­ral­mente, isso con­sis­tiu em res­pon­deu a um ques­ti­o­ná­rio duma revista diri­gida ao público feminino.

As suas res­pos­tas, além de lhe terem indi­cado as cores mais ade­qua­das para a pró­xima esta­ção, revelaram-lhe o seguinte: afi­nal de con­tas, Simone ficava era melhor vista de perfil.

Munida desta infor­ma­ção, Simone pas­sou a ence­tar tra­jec­tó­rias oblí­quas rela­ti­va­mente aos res­tan­tes tran­seun­tes, de forma a colo­car em evi­dên­cia a sua faceta mais favo­rá­vel. No entanto, esta abor­da­gem não cor­reu lá muito bem. A forma como ela se des­lo­cava, afi­nal de con­tas, estor­vava as res­tan­tes pessoas.

As reac­ções de aze­dume perante as bizar­ras tra­jec­tó­rias de Simone não se fize­ram espe­rar. Um indi­ví­duo mais irado disse a Simone, inclu­sivé, que esta ficava melhor mas era vista de relance, afir­ma­ção que a dei­xou deve­ras desgostosa.

Refugiou-se no seu lar. Naque­les dias, devido a um desi­qui­lí­brio nos seus níveis de sero­to­nina, Simone andava taci­turna. Come­çou a colocar-se à janela, sus­pi­rando. A par­tir da janela do seu apar­ta­mento, no 1º andar, punha-se dia­ri­a­mente a obser­var a massa indis­tinta de vul­tos que cal­cor­re­ava a rua. A vida era madrasta.

Foi então que, subi­ta­mente, se aper­ce­beu que algo estava a acontecer.

Simone come­çou a assi­na­lar, da parte de quem pas­sava na rua e a mirava à janela, um certo sobres­salto. As pes­soas esta­ca­vam diante do seu pré­dio e arre­ga­la­vam os olhos, estu­pe­fac­tas. Vis­lum­brada daquela forma, num plano contra-picado, Simone afigurava-se uma figura impo­nente, pro­vo­cando no obser­va­dor uma reve­rên­cia e admi­ra­ção profundas.

Estava encon­trado o seu melhor ângulo.

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Procuro senhora de meia-idade para relacionamento sério

10/20/11

file0030 Procuro senhora de meia idade para relacionamento sério

Aqui­lino já tinha estado nal­guns rela­ci­o­na­men­tos afec­ti­vos bre­ves e semi-breves. Até recen­te­mente, a sua vida havia-se pau­tado sobre­tudo por uma suces­são de envol­vi­men­tos emo­ci­o­nais com capas de revis­tas e máqui­nas de voice-mail. Mas isso estava pres­tes a mudar. Naquele dia, à medida que pou­sava a edi­ção de Janeiro da Marie Claire, teve uma epi­fa­nia. Apercebeu-se da solu­ção para o mis­té­rio do desa­pa­re­ci­mento das peú­gas na máquina de lavar roupa. Che­gou tam­bém a uma outra con­clu­são, a nível pes­soal: estava na altura de encon­trar uma senhora de meia-idade para um rela­ci­o­na­mento sério. Nou­tros tem­pos ter-se-ia con­ten­tado com uma enti­dade sus­cep­tí­vel de pas­sar no teste de Turing, mas isso agora já não bas­tava. Alme­java algo mais. Ansi­ava ter alguém na sua vida, uma pes­soa com quem pudesse dis­pu­tar o comando do tele­vi­sor e, em suma, ser feliz.

Natu­ral­mente, deci­dir colo­car um anún­cio nos clas­si­fi­ca­dos do jor­nal. Que­ria que o texto do anún­cio fosse cati­vante. Ele­gante, sob o ponto de vista esti­lís­tico, lite­ra­ri­a­mente equi­li­brado, sem ser pre­ten­ci­oso e com uma pitada de humor. Que não empol­gasse em dema­sia as expec­ta­ti­vas das visa­das e que man­ti­vesse um índice de fan­far­ro­nice acei­tá­vel. Um texto que abor­dasse a sua cal­ví­cie de uma forma des­com­ple­xada e jocosa, sem ser auto-depreciativo. Um texto inci­sivo que ser­visse como refe­rên­cia para toda uma gera­ção (ou para 1/4 de uma gera­ção, pelo menos). No fundo, pre­ten­dia um mag­nâ­nimo tra­tado na arte de se bem pro­mo­ver visando des­po­le­tar um pro­cesso de corte, em menos de 100 pala­vras. Não sendo dotado do poder da sín­tese (nem, para que conste, de qual­quer outro poder), resol­veu pedir ajuda a terceiros.

Descreve-se em seguida o pro­cesso de selec­ção do amigo que iria ser incum­bido da escrita do anún­cio. Aqui­lino con­ce­beu um dia­grama de Venn repre­sen­tando dois con­jun­tos: ami­gos com capa­ci­dade de redi­gir tex­tos sucin­tos e cati­van­tes, por um lado, e ami­gos dis­pos­tos a ajudá-lo incon­di­ci­o­nal­mente, por outro. Fazendo a inter­sec­ção des­tes dois con­jun­tos, não encon­trou nin­guém. Acres­cen­tou então um ter­ceiro con­junto, ami­gos dis­pos­tos a aju­dar a troco de uma avul­tada soma de dinheiro. Intersectando-o com o pri­meiro, encon­trou então vários poten­ci­ais can­di­da­tos. Esco­lheu o que cobra­ria mais pela tarefa, uma vez que não que­ria que o adjec­tivo “ava­rento” cons­tasse da sua descrição.

Pro­curo senhora de meia-idade para rela­ci­o­na­mento sério…”, come­çava assim o anún­cio. Para deleite de Aqui­lino, as res­pos­tas foram-se suce­dendo em cata­dupa. Todos os dias, a sua caixa de cor­reio ficava ata­fu­lhada de cor­res­pon­dên­cia pro­ve­ni­ente de poten­ci­ais inte­res­sa­das espa­lha­das por todo o país. O texto, esse, era de facto cati­vante e havia cap­tado a aten­ção de um número con­si­de­rá­vel de don­ze­las, bem como de um moço meio coiso que ainda assim deci­diu escre­ver e ten­tar a sua sorte. A ideia do anún­cio tinha-se reve­lado um sucesso. À medida que ia vas­cu­lhando as mis­si­vas, Aqui­lino, sor­riu. Já podia can­ce­lar a sua subs­cri­ção da Marie Claire.

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