O kindle surpresa

Ora vamos lá a isto. Na última iteração do seu dispositivo Kindle, vocacionado para a leitura de livros em formato digital, a Amazon decidiu apetrechá-lo com novas funcionalidades. Uma delas, a popular highlights, é bastante desagradável, por sinal.

Estava eu refastelado a folhear (não como quem folheia, mas como quem pressiona um botão) o livro (e-book) “The Modern Mind: An Intellectual History of the 20th Century”, adquirido na loja online, quando me deparo com uma passagem previamente sublinhada. Alto aí, não fui eu que sublinhei isto, pensei (enquanto pensava também em formas de acrescentar mais parêntesis aos meus textos). Por baixo da passagem destacada surge um número assinalando a quantidade de pessoas que achou por bem sublinhar aquela parte. Ponderei, ponderei e decidi indignar-me. Uma pessoa compra um livro em formato digital, na amazon, convencido que vem imaculado, novinho em folha, e quando dá por si afinal dito livro já vem riscado. Fui logo reclamar. Andar a vender livros em segunda mão, anunciando-os como novos? Não se faz.

Isto até poderia passar incólume, não fosse outra outra falha grave que o Kindle apresenta. Os livros tradicionais, ou seja, aqueles que, imagine-se só, são compostos por folhas de papel, possuem uma capa que permite que outra pessoa identifique facilmente aquilo que estamos a ler. A não ser que a publicação em questão seja a Gina, esse conhecimento pode ser utilizado como pretexto para meter conversa, no contexto do engate: “Olá! Desculpa, não pude deixar de reparar que estás a ler o Anna Karenina. Já agora, sabias que ela bate a bota no final?”. O Kindle, como não possui isso, dificulta a tarefa, retraindo potenciais pretendentes de efectuarem uma abordagem ao leitor(a). Eu próprio tenho sentido isso na pele. Antes de possuir o kindle, enquanto lia em espaços públicos era abordado em média por menos(-) 8 mulheres por dia, enquanto que actualmente sou abordado por menos(-) 15.

Jeff Bezos, se me estás a ouvir, sugiro que colmates esta lacuna lançando um Kindle com um segundo ecrã, posicionado na parte traseira, que mostre a capa do livro que está a ser lido no momento. Quem lê a Gina é que se calhar não vai achar muita piada.

9 de Dezembro de 2011  2 Comentários

É o que dá sair de casa sem calças

Mais uma vez, Aquilino tinha saído de casa sem calças. A situação não era inédita e, além de não ser inédita, era recorrente. Aquilino era bastante distraído e andava constantemente com a cabeça na lua, especialmente desde que o agrupamento musical “os lunáticos” lançou o “estou na lua”, na década de 90. Só na semana passada, as calças tinham ficado em casa por duas ocasiões, com a agravante de Aquilino só se ter apercebido da situação quando chegou ao trabalho.

Escusado será de dizer, todo este imbróglio fazia com que fosse Aquilino fosse alvo de chacota por parte dos seus colegas de trabalho. Nessas ocasiões, Aquilino ficava numa posição vulnerável, de boxers do batman à mostra, enquanto os seus colegas se riam que nem uns alarves daquela figura caricata. Quase toda a malta do escritório, patrão incluído, idolatrava as personagens das bandas desenhadas da Marvel e abominava as restantes, pelo que reservava reacções de desdém ao invés de estrondosas ovações e propostas de cariz sexual a pessoas que expusessem publicamente personagens da DC Comics.

Lá na firma, o Aquilino tem o tradicional emprego de escritório: trabalha num cubículo. Como é que ele chegou até esta posição? Bem, para explicar isto terei de retroceder no tempo. Bem, para explicar isto terei de retroceder no tempo. Peço desculpa. Enganei-me, tenho de retroceder ainda mais. Agora sim. No mês passado, o departamento responsável por identificar nichos de mercado fez uma descoberta surpreendente. Estavam entretidos a farejar nichos de mercado quando identificaram uma área por explorar.

O mérito desta descoberta vai para Sebastião, o trabalhador mais competente da empresa. Sebastião, sendo uma criatura de quatro patas, mais precisamente um cão de raça fox terrier, diligentemente ladrou para o resto da equipa uma série de orientações. De seguida, alçou a pata e urinou no mapa a área geográfica onde estava localizado o público alvo da empresa. Neste caso, encharcou por inteiro um mapa-mundo. Estava visto que a empresa iria ter de abdicar das suas ambições comerciais em Vénus e passar a concentrar-se no planeta Terra. No final desta tarefa, o resto da equipa foi recompensado com um osso cada um e a Sebastião foi atribuído um salário chorudo.

Estava visto que era no planeta terra que estavam as oportunidades. A empresa era vista como uma gananciosa corporação maquiavélica que pegava nos direitos dos trabalhadores, dava-lhes um cafuné, e de seguida deitava esses mesmos direitos numa fogueira onde crepitavam labaredas enormes. Nem toda a gente partilhava desta opinião. As pessoas que nunca tinham ouvido falar da empresa não achavam isso, mas ainda assim havia claramente que fazer algo para melhorar a imagem da empresa. Normalmente os problemas da empresa eram resolvidos enviando resíduos tóxicos para países de terceiro mundo. Contudo, neste caso era necessário adoptar uma solução mais engenhosa, até porque já não sobravam mais países do terceiro mundo para recepcionar entulho da empresa. Que fazer então? Era altura de fazer uma apresentação powerpoint sobre o problema.

Foi então elaborada uma apresentação powerpoint descrevendo o problema de credibilidade da empresa. De seguida, foi feita uma apresentação à administração. Recolheram-se pareceres de 7 administradores e feedback de outros 3. Com essas opiniões, o powerpoint foi rectificado, alterando os gráficos de barras para gráficos circulares, para gáudio de todos. Após essa modificação, o powerpoint ficou bem mais incisivo. O presidente da empresa, apercebendo-se finalmente da gravidade do problema que tinha em mãos, decidiu encetar uma liderança firme e decidida, e não perdeu tempo: delegou, de imediato, a tarefa de encontrar uma solução noutra pessoa.

Como Sebastião tinha sido preso entretanto devido à contrafacção de comida para gato, o presidente sondou a 2ª pessoa mais competente que conhecia. A escolha recaiu em Ezequiel, um estafeta que costumava entregar as pizzas no escritório. Ezequiel, tendo visto Aquilino no outro dia a envergar os boxers do batman, ganhou uma empatia grande para com ele, pois gostava bastante do Christian Bale, tendo alguns posters dele (do batman) em casa, na sala, e também outros dele (do Christian Bale) no quarto.

Ocorreu a Ezequiel uma ideia. A empresa tinha um produto revolucionário que os clientes tinham dificuldade em utilizar, devido à sua extrema complexidade, dado que nem os seus próprios inventores sabiam muito bem para que servia. E que tal se, juntamente com o produto, fosse empacotado e expedido um assistente pessoal? O cliente, ao recepcionar e abrir a encomenda, depara-se então com uma intervenção personalizada. Como que impulsionado por uma mola, o assistente salta da caixa, ainda a cuspir esferovite, e de braços abertos entusiasticamente congratula o cliente pela aquisição do produto, ficando disponível disponível para ajudar na configuração do mesmo bem como para solucionar todas as dúvidas. Partindo do princípio que no final do período de instrução o assistente não é feito refém afim de lhe serem retirados os orgãos, a ideia tinha pernas para andar. Aquilino seria então o eleito para levar a cabo esta tarefa.

A ideia foi exposta ao patrão, que bateu palmas entusiasticamente e de seguida disse nem pensar, a ideia não serve. Era sinal que tinha adorado a sugestão, dado que o patrão padecia de um síndrome que provocava uma incongruência entre a sua comunicação verbal e gestual, sendo que  a gestual prevalecia nesses casos. A ideia avançou.

Actualmente, Aquilino viaja por todo o mundo. Paris, Londres, Tóquio, Singapura, Alenquer. As viagens são passadas dentro de uma caixa, aos solavancos, em compartimentos de carga dos mais variados transportes aéreos, marítimos e equestres. No entanto, a partir de dois orifícios da caixa, consegue vislumbrar silhuetas, e essa vista priveligiada ninguém lhe tira. A interacção com os clientes é a parte mais aliciante e todos são bastante afáveis. Uma altura, Aquilino foi baleado 6 vezes por um cliente que não estava a contar que um vulto saltasse da caixa e se assustou. No entanto, o dito cliente pediu-lhe desculpa na hora, enquanto a ambulância chegava, mal se apercebeu que tinha sido um mal-entendido. Mais tarde, depois Aquilino ter passado 8 semanas no hospital em convalescença, ele e o cliente até se conseguiram rir de toda aquela situação. Há sempre peripécias engraçadas para contar.

A ideia tinha resultado em pleno: A nível de relações públicas, conferia-se um rosto humano a uma gananciosa corporação maquiavélica conhecida por pegar nos direitos dos seus trabalhadores, afagá-los suavemente, e de seguida pegar nesses mesmos direitos e deitar-lhes ácido corrosivo por cima. Em termos económicos, poupava-se e muito na impressão de manuais em papel. O ambiente agradece.

5 de Dezembro de 2011  Publicar um comentário

A propósito do tempo que passa

Todos os dias, ela abria o jornal e folheava a secção da necrologia. O facto de o seu nome não constar lá tranquilizava-a.

Ela gostava de incorporar rituais e gestos ensaiados que, pela repetição, passavam a ser familiares, atenuando a estranheza que ela sentia em habitar o seu próprio corpo. Era uma criatura dada a lúgubres inclinações. Quando morresse, queria que na mármore fosse inscrito um epitáfio catita. Ela sorria e proferia palavras como catita quando falava de assuntos sérios, como a morte, para que não deixassem de ser sérios.

Às vezes deixava de sentir o chão, como se tudo estivesse a desabar e o mundo a estivesse prestes a engolir. Ou como se ela estivesse a levitar, pairando lá no alto, num lugar onde o olhar não chega e que só em quimeras se alcança.

Isto a propósito do tempo que passa.

28 de Novembro de 2011  2 Comentários

O maior erro de Einstein

Apesar da crise, quando cheguei à bifurcação decidi virar à esquerda. Na realidade, a crise pouco ou nada teve a ver com esta minha opção. O que sucede é que um decreto-lei, aprovado na assembleia da república e promulgado esta semana obriga-me a começar, doravante, todos os post por esta expressão.

Atentemos àquilo que é difundido na televisão. Nos telejornais, todas as notícias estão subordinadas ao mesmo tema unificador. É possível observar indivíduos que estão tolhidos pela crise, que falam sobre a crise, que tomam opções condicionados pela crise, que encontram soluções apesar da crise e até pessoas que acham que a própria crise está em crise.

Isto é transversal a todas as espécies. Por exemplo, noutro dia uma cria de panda afastou-se dos seus progenitores e perdeu-se, conseguindo reencontrá-los finalmente após ter deambulado sozinho durante durante 24 horas. O feito desta cria é ainda mais admirável se considerarmos a conjuntura económica em que nos encontramos.

Estou a ser injusto na medida em que os telejornais não transmitem exclusivamente notícias sobre a crise. No final, há sempre um segmento informativo dedicado à metereologia. Se bem que mesmo aí, a crise é evidente devido à ausência de donzelas roliças que outrora marcavam presença neste espaço, sempre empenhadas em elucidar-nos sobre o estado do tempo em portugal continental e nas ilhas.

O maior erro de Einstein não foi ter acrescentado uma constante cosmológica às equações relativas à relatividade geral. Na realidade, o seu maior erro foi ter-se olvidado de acrescentar uma constante C, relativa à crise, cujos efeitos são mais perniciosos do que forças gravítica, nuclear e atómicas combinadas.

Infelizmente, vou ter que finalizar agora este texto agora. É a crise.

23 de Novembro de 2011  4 Comentários

Está o caldo entornado

Como a agressividade não se dilui em água é inevitável que as pessoas, mais certo ou mais tarde, tenham de recorrer a outros expedientes e a chegarem a vias de facto. Há ocasiões em que duas ou mais pessoas decidem resolver um dado diferendo recorrendo à força física. Normalmente, o álcool surge como um catalisador destas desavenças, resultando em disputas que envolvem uma combinação mais ou menos coordenada de movimentos que visam desferir danos ao adversário de forma a aleijá-lo e ensinar-lhe uma lição.

As probabilidades de haver porrada aumentam exponencialmente com a presença de mulheres nas proximidades a quem os homens envolvidos na sessão de intercâmbio de socos possam impressionar. Centro-me aqui exclusivamente nos confrontos masculinos uma vez que na única luta de que tenho registo, envolvendo mulheres, elas estavam em roupa interior e o confronto realizou-se na lama. Não, não testemunhei isso pessoalmente, foi num vídeo com a imagem muito desfocada. A minha vida é bastante deprimente.

Mas voltemos à análise antropológica do confronto. Ao demonstrar que é um exímio lutador e que sabe defender a sua honra ripostando quando é provocado com olhares consecutivos de mais de 0.6 segundos, o homem está a sinalizar às demais donzelas que é viril e que as consegue proteger de leões, elefantes e tigres. Está a transmitir, portanto, que é um bom partido, capaz de assegurar a protecção da mulher no neolítico.

O nível de indignação tem subido a olhos vistos nos últimos anos. Em termos técnicos, as pessoas andam mais carrancudas. Esta afirmação pode facilmente ser sustentada através da análise da evolução no número de pessoas que escrevem frases totalmente em maiúsculas. Compilando estes dados e representando-os sob a forma de gráficos de barras, gráficos circulares e histogramas, rapidamente chegámos à conclusão que as pessoas andam mais chateadas agora do que há alguns anos atrás.

Apesar de toda esta indignação acumulação, actualmente as pessoas levam vidas muito ocupadas e preenchidas, por causa da ubiquidade da televisão e da vasta oferta a nível de canais televisivos. Com tal azáfama constante nem sequer sobra tempo para criar inimizades, o que é uma pena. Não tarda nada os miúdos só se vão saber agredir recorrendo a avatares que controlam através de gamepads e teclados. Prevejo um futuro negro para a humanidade, com a proliferação do síndrome do túnel carpal.

7 de Novembro de 2011  Publicar um comentário

Desculpe, sou eu o visado?

Um indivíduo entra de rompante na sala. A indignação está-lhe indubitavelmente estampada no rosto. Brada de imediato, numa voz cavernosa: “Você é um palerma!”. Todos os presentes ficam sobressaltados.

Aquilino resolve inquirir: “Desculpe, sou eu o visado?”

“Não não, estava a dirigir-me ao idiota que está sentado a seu lado.”

“Mas ele é idiota ou palerma?”

“Ambos. Tanto é idiota como palerma, embora com uma preponderância superior no que à idiotice diz respeito. E bastante obtuso, também.”

“Permita-me que lhe diga, acho os insultos que dirige a este cavalheiro completamente desprovidos de originalidade. Nem sequer fez referência aos hábitos de higiene dele, ou melhor, à total ausência deles. Outras características saltam também à vista, tais como a sua extrema fealdade e voz esganiçada. Poderia igualmente ter ridicularizado a sua absurda e paupérrima colecção de selos.”

“Bem visto. Não primo pela originalidade, de facto. Vou ter isso em conta quando, futuramente, achincalhar esse atrevido!”

“Atrevido? Calma, também não é preciso ofendê-lo dessa forma. Veja lá se rectifica essa atitude. Mas não se preocupe. Decerto que esta besta o afectou, a si, com alguma vil acção que o tornou merecedor de ser alvo de chacota em público e de lhe serem desferidas as mais rudes ofensas.”

“Pois, nem calcula a desfaçatez do gajo. Mas Isto não fica assim, não. Eu voltarei! Adeus.”.

O indignado abandona, a sala, batendo a porta com estrondo atrás de si. De forma a aumentar o efeito dramático presente nesta cena, já de si surreal, um quadro que estava pendurado na parede resolveu atirar-se ao chão. Os restantes quadros, menos afoitos, mantiveram-se impávidos e serenos, permanecendo enganchados nos respectivos pregos. Alguns deles protestaram, entredentes, contra o animismo presente neste parágrafo.

Por momentos, todas as pessoas presentes na sala ficaram sem saber o que dizer. Teutónio, o alvo dos insultos, assistiu a tudo sem balbuciar uma palavra, sequer. Estava estupefacto. Aquilino vira-se então para ele, olhos nos olhos, e diz-lhe:

“Bem, que desagradável da parte daquele moço ter interrompido a nossa conversa. Com isto tudo já perdi o fio à meada. Onde é que nos íamos, Teotónio?”

“Mal posso acreditar… Pensei que éramos amigos… Tu não gostas dos meus selos?”


A imagem que acompanha este post foi gentilmente pilhada daqui.

28 de Outubro de 2011  Publicar um comentário

Como devo olhar para ti?

O caso de Simone era singular, como o de toda a gente. Simone tinha virtudes, omissões, e o defeito de possuir demasiadas virtudes, o que a impedia de tirar mais partido da vida. Oscilava, invariavelmente, entre e o militantismo cívico activo e o conformismo, consoante estivesse ou não a dar algo de jeito na televisão. Apreciava rum e dubstep, mas em doses moderadas (o dubstep, não o rum).

Durante a sua infância, um conjunto de circunstâncias fizeram Simone acreditar na ideia de que era ela melhor vista de forma intermitente, querendo-se com isto dizer que a sua companhia só era tolerada em pequenas doses, devidamente espaçadas. Alguns anos volvidos, esta sua percepção iria mudar radicalmente.

Tudo foi despoletado com a leitura de The Picture of Dorian Gray. Nas palavras de Oscar Wilde, “the bravest man among us is afraid of himself”. Esta frase fez ressonância em Simone. Decidida a conhecer-se melhor, a testar os seus limites e a elucidar-se acerca do rumo que realmente desejava imprimir à sua vida, resolveu embarcar numa viagem de auto-descoberta. Naturalmente, isso consistiu em respondeu a um questionário duma revista dirigida ao público feminino.

As suas respostas, além de lhe terem indicado as cores mais adequadas para a próxima estação, revelaram-lhe o seguinte: afinal de contas, Simone ficava era melhor vista de perfil.

Munida desta informação, Simone passou a encetar trajectórias oblíquas relativamente aos restantes transeuntes, de forma a colocar em evidência a sua faceta mais favorável. No entanto, esta abordagem não correu lá muito bem. A forma como ela se deslocava, afinal de contas, estorvava as restantes pessoas.

As reacções de azedume perante as bizarras trajectórias de Simone não se fizeram esperar. Um indivíduo mais irado disse a Simone, inclusivé, que esta ficava melhor mas era vista de relance, afirmação que a deixou deveras desgostosa.

Refugiou-se no seu lar. Naqueles dias, devido a um desiquilíbrio nos seus níveis de serotonina, Simone andava taciturna. Começou a colocar-se à janela, suspirando. A partir da janela do seu apartamento, no 1º andar, punha-se diariamente a observar a massa indistinta de vultos que calcorreava a rua. A vida era madrasta.

Foi então que, subitamente, se apercebeu que algo estava a acontecer.

Simone começou a assinalar, da parte de quem passava na rua e a mirava à janela, um certo sobressalto. As pessoas estacavam diante do seu prédio e arregalavam os olhos, estupefactas. Vislumbrada daquela forma, num plano contra-picado, Simone afigurava-se uma figura imponente, provocando no observador uma reverência e admiração profundas.

Estava encontrado o seu melhor ângulo.

26 de Outubro de 2011  4 Comentários

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