Procuro senhora de meia-idade para relacionamento sério

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Aqui­lino já tinha estado nal­guns rela­ci­o­na­men­tos afec­ti­vos bre­ves e semi-breves. Até recen­te­mente, a sua vida havia-se pau­tado sobre­tudo por uma suces­são de envol­vi­men­tos emo­ci­o­nais com capas de revis­tas e máqui­nas de voice-mail. Mas isso estava pres­tes a mudar. Naquele dia, à medida que pou­sava a edi­ção de Janeiro da Marie Claire, teve uma epi­fa­nia. Apercebeu-se da solu­ção para o mis­té­rio do desa­pa­re­ci­mento das peú­gas na máquina de lavar roupa. Che­gou tam­bém a uma outra con­clu­são, a nível pes­soal: estava na altura de encon­trar uma senhora de meia-idade para um rela­ci­o­na­mento sério. Nou­tros tem­pos ter-se-ia con­ten­tado com uma enti­dade sus­cep­tí­vel de pas­sar no teste de Turing, mas isso agora já não bas­tava. Alme­java algo mais. Ansi­ava ter alguém na sua vida, uma pes­soa com quem pudesse dis­pu­tar o comando do tele­vi­sor e, em suma, ser feliz.

Natu­ral­mente, deci­dir colo­car um anún­cio nos clas­si­fi­ca­dos do jor­nal. Que­ria que o texto do anún­cio fosse cati­vante. Ele­gante, sob o ponto de vista esti­lís­tico, lite­ra­ri­a­mente equi­li­brado, sem ser pre­ten­ci­oso e com uma pitada de humor. Que não empol­gasse em dema­sia as expec­ta­ti­vas das visa­das e que man­ti­vesse um índice de fan­far­ro­nice acei­tá­vel. Um texto que abor­dasse a sua cal­ví­cie de uma forma des­com­ple­xada e jocosa, sem ser auto-depreciativo. Um texto inci­sivo que ser­visse como refe­rên­cia para toda uma gera­ção (ou para 1/4 de uma gera­ção, pelo menos). No fundo, pre­ten­dia um mag­nâ­nimo tra­tado na arte de se bem pro­mo­ver visando des­po­le­tar um pro­cesso de corte, em menos de 100 pala­vras. Não sendo dotado do poder da sín­tese (nem, para que conste, de qual­quer outro poder), resol­veu pedir ajuda a terceiros.

Descreve-se em seguida o pro­cesso de selec­ção do amigo que iria ser incum­bido da escrita do anún­cio. Aqui­lino con­ce­beu um dia­grama de Venn repre­sen­tando dois con­jun­tos: ami­gos com capa­ci­dade de redi­gir tex­tos sucin­tos e cati­van­tes, por um lado, e ami­gos dis­pos­tos a ajudá-lo incon­di­ci­o­nal­mente, por outro. Fazendo a inter­sec­ção des­tes dois con­jun­tos, não encon­trou nin­guém. Acres­cen­tou então um ter­ceiro con­junto, ami­gos dis­pos­tos a aju­dar a troco de uma avul­tada soma de dinheiro. Intersectando-o com o pri­meiro, encon­trou então vários poten­ci­ais can­di­da­tos. Esco­lheu o que cobra­ria mais pela tarefa, uma vez que não que­ria que o adjec­tivo “ava­rento” cons­tasse da sua descrição.

Pro­curo senhora de meia-idade para rela­ci­o­na­mento sério…”, come­çava assim o anún­cio. Para deleite de Aqui­lino, as res­pos­tas foram-se suce­dendo em cata­dupa. Todos os dias, a sua caixa de cor­reio ficava ata­fu­lhada de cor­res­pon­dên­cia pro­ve­ni­ente de poten­ci­ais inte­res­sa­das espa­lha­das por todo o país. O texto, esse, era de facto cati­vante e havia cap­tado a aten­ção de um número con­si­de­rá­vel de don­ze­las, bem como de um moço meio coiso que ainda assim deci­diu escre­ver e ten­tar a sua sorte. A ideia do anún­cio tinha-se reve­lado um sucesso. À medida que ia vas­cu­lhando as mis­si­vas, Aqui­lino, sor­riu. Já podia can­ce­lar a sua subs­cri­ção da Marie Claire.

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