Telefonema de algibeira

Às vezes recebo tele­fo­ne­mas de algi­beira.
Quem me liga não é a pes­soa pro­pri­a­mente dita, mas sim a sua indu­men­tá­ria.
Por exem­plo, no outro dia o meu tele­fone tocou. Era uma cha­mada de Maria.
Do outro lado, uma caco­fo­nia de sons, em sur­dina. Ruí­dos aba­fa­dos.
“Estou, Maria?”. Nenhuma res­posta, ape­nas uma série de ruí­dos ininteligíveis.

Após aquilo que pare­ceu uma eter­ni­dade mas que na rea­li­dade foram 23 segun­dos eis que, final­mente, surge uma voz com um tim­bre muito pecu­liar:
“Alô Ger­vá­sio, daqui fala o bolso da Maria. Fui eu que lhe liguei. Como está?“
Não estava à espera daquela intro­du­ção. Bal­bu­ciei qual­quer coisa. Era uma situ­a­ção iné­dita para mim. Tenho alguns abat-jours de quem sou con­fi­dente, mas con­fesso que nunca tinha inte­ra­gido com bol­sos, nem tão pouco sabia que fala­vam, daí a minha com­pre­en­sí­vel estranheza.

 
Após essa hesi­ta­ção ini­cial, o bolso que­brou o gelo com uma ane­dota, bas­tante engra­çada por sinal. Era a típica piada que prin­ci­pia com 3 indi­ví­duos de dife­ren­tes naci­o­na­li­da­des que entram num bar. Alu­dia depois ao facto de a vida ser triste e des­pro­vida de sen­tido e que as todas as nos­sas acções no fundo são incon­se­quen­tes, inú­teis e ridí­cu­las. Algo do género. Con­tado pelo bolso tem mais graça. Gos­tei do facto de ser um denim com sen­tido de humor.

A par­tir daí, a con­versa come­çou a fluir. Estabeleceu-se ali uma inte­rac­ção inte­res­sante entre nós. Quem diria que uma por­ção inte­rior de tecido pode­ria ter tan­tos e tão vas­tos conhe­ci­men­tos his­tó­ri­cos acerca da bata­lha de Water­loo. E rela­tos tão curi­o­sos sobre a vida de Maria. 

Real­mente é ver­dade que aquilo dizem. Aquilo que uma pes­soa veste pode dizer muito sobre ela.
Agora reco­nheço isso.

Coi­sas que acon­te­cem com alguma regu­la­ri­dade

Write a comment

Name *

E-mail *

Website

Message *

0 Comments

There are no comments yet.

Balloons theme by
Moargh.de