Um caso bicudo

A comu­ni­ca­ção é um pro­cesso com­pli­cado, sobre­tudo quando envolve pes­soas. Como se não bas­tasse, acresce a isso o facto de as pes­soas nem sem­pre sabe­rem muito bem como se hão-de diri­gir umas às outras. Em cer­tos con­tex­tos, tra­tar o nosso inter­lo­cu­tor por dig­nís­simo mag­nâ­nimo senhor dou­tor é uma forma de tra­ta­mento que poderá pecar por insu­fi­ci­ente, cons­ti­tuindo uma afronta ao visado.

Percebe-se a impor­tân­cia do título: nin­guém quer fazer negó­cios com o Ana­cleto, mas se for com o enge­nheiro Ana­cleto a his­tó­ria já é outra. O Ana­cleto cheira mal dos pés. No enge­nheiro Ana­cleto, por seu turno, há um odor que é ema­nado pela sua planta do pé e que é cap­tado pelo nosso nariz que peca por ser dema­si­ado sensível.

Às vezes liga­mos para um escri­tó­rio na expec­ta­tiva de poder falar com o senhor fulano, e riposta uma secre­tá­ria do outro lado, apontando-nos na direc­ção certa: “quer falar com o dou­tor fulano?”. Cá para mim, é esta a prin­ci­pal tarefa que é dele­gada na secre­tá­ria: informar-nos como deve­mos dirigir-nos à exce­len­tís­sima per­so­na­li­dade em causa, não vá uma pes­soa pas­sar por atre­vida e abu­sa­dora da con­fi­ança alheia.

Além do mais, se for o pró­prio a apresentar-se como ilu­mi­nado dou­to­rado honoris-causa sícrano, parece mal, mas se for uma ter­ceira pes­soa a efec­tuar a apre­sen­ta­ção, já é apro­pri­ado. É por estas e por outras que me faço sem­pre acom­pa­nhar pelo Aní­bal, que me apre­senta sem­pre a outros indi­ví­duos como “este senhor mais cre­dí­vel do que aquilo que apa­renta ser na rea­li­dade cha­mado José”.

Há um outro aspecto que gos­ta­ria de intro­du­zir neste texto. Vou então introduzi-lo. É o seguinte: há pes­soas que con­se­guem des­do­brar as suas opi­niões de forma curi­osa, con­se­guindo a pro­eza de falar seja a título indi­vi­dual ou colec­tivo e até enquanto mem­bro de um deter­mi­nado cargo. Pode­mos dis­cor­dar das afir­ma­ções de um amigo, confrontá-lo com as mes­mas e obter como res­posta “Sim, mas eu não disse isso a título pes­soal. Falei enquanto repre­sen­tante do sin­di­cato das pes­cas. Até por­que, pes­so­al­mente, dis­cordo por com­pleto des­sas afir­ma­ções que eu pró­prio pro­feri nessa con­di­ção. Já enquanto pra­ti­cante de cur­ling, não tenho a nada a dizer sobre essa maté­ria”. Tanto isto, como o cur­ling, dão que pensar.

Pes­so­al­mente, pro­meto nunca enve­re­dar por este tipo de mala­ba­ris­mos inte­lec­tu­al­mente deso­nes­tos. Já enquanto autor deste blog, não garanto nada. E, por último, e em nome dos meus lei­to­res, declaro que desta vez um post con­se­guiu ser quase interessante.

Enquanto esta­mos à espera
O kin­dle sur­presa

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