Uma ideia revolucionária que claramente nunca chegará a lado nenhum

Quem de nós não passou já pela seguinte situação? Estamos a barrar manteiga numa tosta, descontraidamente, e é então que, num ápice, uma falha na cordenação motora provoca uma queda desenfreada da tosta. Ao embater no chão (e aqui reside a tragédia) é a face gordurosa que está voltado para baixo e que absorve parte do impacto. Uma belíssima tosta fica logo arruinada. É uma problemática que a todos deixa taciturno e a alguns macambúzio, inclusivé, mas não é sobre isto que quero dissertar.

Há dias em que atendo o telefone e, após breves minutos de amena cavaqueira, o meu interlocutor, que é um amigo da família, pede-me para entregar um determinado mimo (geralmente beijos ou abraços, avulsos) a ambos os progenitores, irmã, tia e familiares até à 4ª geração. À primeira vista poderá parecer um pedido razoável, mas na realidade delegar a entrega de mimos é a outrém constitui um enorme fardo. Jamais deveremos colocar tamanha responsabilidade sob os ombros de uma pessoa, a não ser que se trate de um profissional, como muito pouco oportunamente irei defender mais adiante.

Sob o ponto de vista antropológico observo também com muita atenção as emissões televisivas daquele subgénero de programas apelidados em linguagem mais técnica de “programas da tarde”. Aí podemos observar populares que, quando colocados diante do microfone, decidem enviar (ou melhor, dizem que querem enviar) um determinado mimo para o/a sobrinha/filho/pai que está na Suiça/Luxemburgo/Cedofeita. Mas isto levanta uma série de questões: Como é que, em termos logísticos, o mimo chega lá? Há inúmeras jurisdições pela frente. Quem é que se encarrega de remeter estes mimos ao seu legítimo destinatário?

Porque pelos vistos o país tem muito amor para dar mas esse amor está a cair em saco roto, proponho a criação de uma agência internacional de entrega de mimos ao domicílio. Note-se que só estou a advogar a entrega de cumprimentos, abraços, carícias, restantes gestos de afecto, fistbumps ou até ai faibes. Nada que implique a mais ínfima violência, dado que já existem agências criminosas que se encarregam da entrega de toda a panóplia de contactos físicos interpessoais mais bruscos e que chegam até a aleijar. E é tudo por agora. Um abraço!

19 de Outubro de 2010

One response to Uma ideia revolucionária que claramente nunca chegará a lado nenhum

  1. Pedro said:

    Muito bom! Mas eu já estive lá fora e sei que na França há profissionais do mimo há já longos anos.. Só neste País é que a indústria do mimo não anda para a frente! Sempre a mesma pouca vergonha! bah

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